Agnès Varda, um passeio pela vida e obra de uma revolucionária da imagem

Para inaugurar o canto Flower Power do Lab, vamos falar de Agnès Varda, uma mulher visionária e sensível, que rompeu barreiras como artista e fez história no cinema.

Agnès Varda, um passeio pela vida e obra de uma revolucionária da imagem

Para inaugurar o canto Flower Power do Lab, vamos falar de Agnès Varda, uma mulher visionária e sensível, que rompeu barreiras como artista e fez história no cinema.
Cineasta Agnès Varda com a câmera nas mãos filmando uma cena de documentário
Agnès Varda (1928–2019). Fonte: Academy Museum

Varda nasceu Arlette Varda em 30 de maio de 1928. 

Foi concebida em Arles, no sul da França, e nasceu na Bélgica, em Ixelles, uma cidadezinha fundada por um monge beneditino no ano de 1196.

Terceira filha de cinco irmãos, abriu mão do nome próprio de registro aos 18 anos, escolhendo para si o nome de Agnès.  

“Fui concebida na cidade de Arles, por isso me chamavam de Arlette. Aos 18 anos mudei meu nome para Agnès.”        

Sua mãe, Christiane, era de origem francesa. Seu pai, Eugène Jean Varda, foi engenheiro e membro de uma família de refugiados gregos do Império Otomano. 

Aos 12 anos, em 1940, durante a Segunda Guerra, ela se mudou com a família para uma cidade chamada Sète, na França, onde moraram durante vários meses em um barco. Provavelmente para se esconder do avanço nazista na região. 

Retrato em branco e preto da cineasta da cineasta Agnès Varda em 1962.
Agnès Varda em 1962

Varda talvez seja uma antiga conhecida dos amantes do cinema, mas sua trajetória merece um olhar atento para além do universo da sétima arte. Uma de suas marcas registradas é o frescor com que retratou alguns dos eventos históricos mais relevantes do século 20, e que ecoam até hoje. 

Em “Black Panthers, 1968”, documentário que escreveu e dirigiu, há registros icônicos das manifestações dos Panteras Negras para libertar Huey P. Newton, líder e um dos fundadores do partido. O curta-metragem foi filmado em Oakland, na Califórnia, no verão de 1968. 

Segundo personagens entrevistados para o curta, a motivação para o encarceramento de Huey foi política. Sua prisão aconteceu numa emboscada da polícia, a quem os Panteras se referiam como “porcos” (pigs). 

Na abertura do filme, a voz da narradora esclarece: “Isso não é um piquenique, mas um evento político organizado”. As imagens, resultado da abordagem cenográfica ousada e sensível de Varda, mostram crianças, jovens e representantes do partido cantando descontraídos durante uma manifestação. 

Panteras Negras (Black Panthers, Documentário de Agnès Varda, 1968)

Na época, Oakland, a sede dos Panteras Negras, tinha uma população de 400 mil habitantes, sendo 32% deles negros. Seu aparato policial era notoriamente conhecido pela brutalidade contra os negros, perseguidos, presos e, muitas vezes, assassinados injustamente. 

Créditos do filme "Black Panthers, 1968"
Créditos do documentário “Black Panthers, 1968”

Uma das entrevistadas no documentário é a professora de direito, ativista e secretária de Comunicação do partido, Kathleen Cleaver, que fala sobre a beleza dos cabelos naturais e dos traços originais da população negra. 

Varda entrevista o próprio Huey na cadeia e ouve dele, entre outras coisas, que “o papel das mulheres negras nos Panteras Negras é o mesmo dos homens. Não fazemos distinção. Elas ocupam posições importantes, têm instrução militar e desempenham funções como revolucionárias”. Huey diz também que “80% dos prisioneiros encarcerados nos Estados Unidos são negros e, na maioria, por razões políticas”.  

“Na frente das câmeras as pessoas se comportam de maneira diferente. Na frente das câmeras, alguma coisa extravasa das pessoas, e se você consegue captar isso, é muito empolgante.” A. Varda 

O currículo da cineasta é carregado de diplomas de peso. Sua formação universitária aconteceu em Paris, onde estudou história da arte na École du Louvre, fotografia na École des Beaux-Arts e literatura e psicologia na Sorbonne. 

Ela teria dito que sua mudança para a capital francesa “foi uma tormenta” e que “as memórias de sua chegada são as de uma cidade cinza, desumana e triste”. Dizem também que ela não se dava bem com os colegas e qualificava as aulas na Sorbonne de “estúpidas, antiquadas, abstratas e inadequadas para as ambições dos jovens da época”. 

Varda par Agnès | Press Conference Highlights | Berlinale 2019

“Eu não estou interessada em ser uma diretora mulher. Eu quero fazer um filme radical.” A. Varda, Berlinage, 2019

Outro aspecto original de Varda é sua sensibilidade artística apuradíssima e a atitude corajosa e livre por trás e na frente das câmeras. Ao lado de colegas como François Truffaut, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, entre outros, ela é um dos expoentes da Nouvelle Vague, movimento do cinema francês do final dos anos 1950 e início dos 1960, criado em reação à estética hollywoodiana. Sua marca registrada eram filmes intimistas, de baixo orçamento, roteiros com narrativas não lineares e atores desconhecidos. 

“O cinema é minha casa. Eu acho que sempre morei dentro dele.” Recortes

Em “The Beaches of Agnès”, um “autorretrato” da cineasta, lançado em 2008, vemos sua história apresentada de forma cronológica, desde o nascimento, na Bélgica, até a comemoração dos seus 80 anos, em 2008, em Paris. 

Trailer do filme The Beaches of Agnès

O estilo de Varda é único. Muito plástico. É como se ela tivesse diante de si uma folha de papel em branco, que vai sendo preenchida com trechos dos seus filmes, rabiscos, colagens de cenas atuais e personagens inusitados. Material rico que ela usa para ilustrar suas memórias. Uma trajetória de vida dura e tratada de forma surpreendentemente poética. Na infância, ela presenciou crianças judias sendo deportadas para campos de concentração, por exemplo. 

Em seu primeiro filme, “La Pointe Courte”, lançado em 1954, e precursor da Nouvelle Vague, Varda usa como cenário uma vila de pescadores, no sul da França. Ao longo do filme, entrelaça cenas reais que mostram o dia a dia dos moradores da vila com uma narrativa ficcional

Reencontrar Varda tem sido estimulante. Num momento de luta contra dispersões plantadas e diante da reciclagem de métodos de perpetuação do horror por agentes que dominam hoje a política e a polícia em várias cidades do Brasil, passar um tempo na companhia de Varda é um alento. 

Para quem quiser mais Varda, segue aqui um apanhado de obras e logo abaixo, links de pesquisa. 

The Complete Filmes of Agnès Varda Trailer

Além disso, no final de 2025, o IMS vai apresentar “pela primeira vez no Brasil um panorama da produção fotográfica de Agnès Varda (1928-2019)”. A exposição acontecerá de 29 de novembro de 2025 a 12 de abril de 2026 no IMS, em São Paulo. Saiba mais aqui. 

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