“O que eu faço com essa menina? Ela não tira a cara do celular”.
Se o drama de conviver com crianças e adolescentes que não tiram o rosto da tela te ronda diariamente, acredite, você não está só.
A angústia contemporânea diante do uso exaustivo das redes sociais é palpável. Entender seu funcionamento e a lógica por trás do fascínio que elas exercem talvez seja a única forma de enfrentá-las.
E sejamos honestos, jovens e crianças sofrem pela exposição excessiva numa idade tão tenra, mas todos nós estamos expostos aos riscos da superexposição.
Os brasileiros ocupam posição de destaque entre os usuários mais assíduos de tecnologias de socialização do mundo.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069 de 1990) diz que “a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana e que devemos, como nação, assegurar as oportunidades para o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.”
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) 13.709 (2018), no artigo nº 14, diz que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deve ser realizado com o consentimento específico (parágrafo 1º) de pelo menos um dos pais ou responsável legal, quando não encontrada nenhuma outra base legal que justifique o tratamento de dados pessoais deste público.
Está mais que na hora das empresas criadoras das tecnologias sociais investirem em medidas efetivas de segurança e proteção que atendam o perfil da população brasileira: socialmente desigual, heterogênea, distribuída numa vastidão de território sem fim, com pouco acesso a educação de qualidade, violenta, suscetível a discursos e mecanismos que prometem soluções imediatas para questões estruturais, replicante de modelos colonialistas, etc.
Enquanto isso, até em função de brechas nas leis, continuam jogando a responsabilidade nas costas dos responsáveis legais ou da família.
No dia 17 de setembro de 2024, o Instagram anunciou novas medidas para reforçar a privacidade e amenizar os efeitos nocivos da plataforma em crianças e jovens com idade inferior a 17 anos.
Conheça abaixo quais são, entenda seu impacto na vida dos jovens e crianças. Cultivar uma postura proativa no entendimento das redes sociais é fundamental hoje. Afinal, esse visitante meio divertido, meio inconveniente, útil e colaborativo, e por vezes muito nocivo, entrou nas nossas casas de mala cheia e não pensa em sair tão cedo.
No Brasil elas entrarão em vigor para toda a base de assinantes apenas em janeiro de 2025. Mas não desanime da leitura, a essência do texto não está nas mudanças em si, mas nas motivações por trás delas.
Ao redor do mundo pipocaram entrevistas e reportagens reverberando o comunicado. Poucos, no entanto, se aprofundaram no impacto real e na intenção da Meta, dona do Instagram, por trás dos esforços.
Nova legislação para redes sociais em discussão nos Estados Unidos
Para as autoridades nos Estados Unidos, às voltas com a tramitação de leis por mais segurança e privacidade para crianças e adolescentes nas redes, o anúncio, neste momento, e a envergadura das medidas, não passa de fumaça da Meta para acalmar os ânimos dos legisladores.
Em julho de 2024, o Senado norte-americano aprovou bipartidariamente, ou seja, tanto republicanos quanto democratas votaram a favor, a Kids Online Safety Act (Kosa). Segundo o New York Times, a nova legislação, ainda em tramitação, cobra das plataformas o controle de funcionalidades que intensificam a prática de cyberbullying, assédio e apologia ao autoflagelo. E a implementação de mecanismos de proteção à privacidade e ao uso compulsivo das redes.
Para os jovens que compartilharam seu ponto de vista com as autoridades responsáveis pela formulação da lei, a iniciativa tem um caráter de censura e pode afetá-los negativamente. Um apelo legítimo de comunidades como LGBTQIA+, que apesar do uso expressivo das redes têm baixa representatividade nas discussões sobre futuro das plataformas.
Ou seja, colocar crianças e jovens com idade inferior a 17 anos no mesmo balaio, já é em si uma postura não razoável. Não ouvir o que eles têm a dizer, menos ainda. As transformações pelas quais eles passam nas primeiras décadas de vida são intensas e rápidas. É preciso pensar nos impactos positivos e negativos da plataforma por uma série de recortes.
Seria digno também evitar que as mudanças priorizem a agenda política de determinados grupos, como, por exemplo, as abas mais conservadoras. As plataformas dizem que ouvem os usuários, mas rodar pesquisas maquiadas é praxe no ramo. Usuários e criadores são historicamente o motor e a bucha de canhão das plataformas do Vale do Silício.
A pesquisa TIC KIDS ONLINE, realizada em 2023 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, com adolescentes e crianças entre 9 e 17 anos de 2704 famílias no Brasil, traz uma fotografia óbvia e preocupante. Do total de entrevistados:
- 20% receberam conteúdos sensíveis sobre alimentação e sono;
- 16% foram expostas a conteúdos de automutilação;
- 26% foram vítimas de discriminação ou cyberbullying
- 16% relataram terem visto ou recebido imagens, vídeos ou mensagens de conteúdo sexual.
Segundo a mesma pesquisa :
“O Instagram (36%) é a plataforma mais usada pelos usuários de Internet de 9 a 17 anos, frente ao YouTube (29%); TikTok (27%) e o Facebook (2%).”
“Nas faixas de 9 a 10 anos e de 11 a 12 anos, o YouTube lidera com 42% e 44%, respectivamente. Já nas faixas de 13 a 14 anos (38%) e de 15 a 17 anos (62%), predomina o uso do Instagram.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria: “As telas preenchem vários vácuos, temporal ou existencial, desde “não ter o que fazer”, ócio ou tédio, distrair, falta de apego, abandono afetivo ou mesmo pais ocupados, estressados ou cansados demais para dar atenção aos seus filhos, ou por que eles nem mesmo desgrudam de seus próprios celulares.
Pesquisas médicas e evidências científicas vão se acumulando e sendo atualizadas, não só sobre benefícios quanto à aceleração das informações e notícias em tempo quase real, mas também, sobre os prejuízos à saúde, quando ocorre o uso precoce, excessivo e prolongado das tecnologias durante a infância e os efeitos a longo prazo, na adolescência.”
Fonte: MenosTelas#MaisSaúde, Manual de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria, de agosto de 2024.
Há tempos, tanto o Instagram quanto as demais plataformas sociais, de games, mensagens etc como X (ex-Twitter, nesse momento, suspenso no Brasil), TikTok, Snapchat e WhatsApp, se comprometem em transformar a internet num ambiente mais seguro e harmônico. Tem inclusive aquelas que não chegam nem a tentar, como Kwai.
Até agora, no entanto, a maioria dos esforços não passa de discurso vazio e tático baseado em mudanças de impacto simbólico, visando, sobretudo, apaziguar os ânimos de grandes anunciantes, políticos e acionistas.
Vejamos as principais mudanças anunciadas pelo Instagram:
(1) Contas Privadas. A conversão automática de contas de jovens com menos de dezesseis anos, até então potencialmente visíveis a qualquer pessoa navegando no aplicativo, de públicas para privadas. A partir de agora os jovens terão que aceitar novos seguidores, e somente os seguidores da conta poderão ver os conteúdos publicados. Sujeitos mal-intencionados e desconhecidos, sedentos de espiar os adolescentes, terão seu acesso restrito. A medida também se aplica a jovens com menos de dezoito anos que se logarem na plataforma pela primeira vez;
(2) Restrições em mensagens. Apenas os seguidores da conta poderão mandar directs ou direct messages (DMs) pelo Insta. Directs são mensagens enviadas ou recebidas, de forma privada, entre usuários do Instagram. Um desconhecido online pode tentar mandar uma mensagem, mas se o usuário não autorizar, ele não consegue entrar em contato;
(3) Restrição a conteúdos sensíveis. Aumento nas restrições quanto ao tipo de conteúdo distribuído nas contas de adolescentes. Reels sobre automutilação, promoção de procedimentos estéticos e violência explícita, por exemplo, serão “barrados” nas abas “explorar” ou nos reels;
(4) Avisos de limitação de tempo. Novas funções que visam reduzir o tempo de uso de tela (screen time), como o envio de notificações de “desconecte-se” toda vez que o tempo de uso diário ultrapassar os 60 minutos;
(5) Modo Repouso (sleep mode). Suspensão das notificações noturnas entre 10 da noite e sete da manhã. As notificações serão “silenciadas” e respostas automáticas serão enviadas por direct messages caso algum seguidor tente entrar em contato nesse período;
(6) Limites nas interações. Os adolescentes só poderão ser mencionados ou tagueados pelos seus seguidores. E uma versão mais restritiva da função anti-bullying, irá filtrar e omitir “palavras e frases” (hidden words and phrases) ofensivas dos comentários e pedidos de DMs;
Para implementar a mudança “Contas Privadas”, o Insta vai usar a data de nascimento informada no perfil do usuário. Sob esta prerrogativa, a vulnerabilidade da mudança proposta é enorme, uma vez que a data de nascimento é facilmente “editável”. Eles terão que confiar aos jovens sua edição. Estariam os adolescentes dispostos a perder audiência e alcance nos seus conteúdos? A inteligência artificial seria uma saída para garimpar os falsificadores de identidade?
Como checar se o status da conta do Insta é público ou privado e como alternar entre ambos:
O canal de YouTube BTN (Behind the News), focado em jovens e produzido pelo grupo de mídia australiano, Australian Broadcasting Corporation, saiu às ruas para entender o impacto das mudanças. Os jovens entrevistados são honestos sobre sua falta de honestidade: “não informaremos a data de nascimento real, vamos mentir”.
Na mudança “Restrições a conteúdos sensíveis” não está claro o que o Instagram considera conteúdo impróprio. A maioria das diretrizes da comunidade do Instagram coloca nas mãos dos usuários as ações necessárias para manter a plataforma segura:
- “Se você vir algo no Instagram que acredita ser um golpe, denuncie.”
- “Se seu amigo estiver em perigo imediato de suicídio e automutilação, ligue para os serviços de emergência locais imediatamente. Não espere.”
- “Se você estiver tendo problemas com distúrbios alimentares ou imagem corporal negativa, incentivamos você a buscar ajuda.”
A lista de dicas e formas de se proteger na plataforma é imensa. A mensagem subliminar é clara: “Os riscos de andar por aqui são grandes, fique alerta, se prepare e esteja pronto para reagir e se defender”.
O Instagram se livra da responsabilidade e você acumula mais um item a sua lista infindável de medidas contra a violência (que você mesmo deve tomar). Se lembram do “valioso” conselho secular e retrógrado “Não saia de casa de shorts, pois um senhor mal-intencionado pode te atacar e a culpa será sua”?
Segundo o estudo Algoritmos, Violência e Juventude no Brasil: rumo a um modelo educacional para a paz e os direitos humanos, da ThinkTwice Brasil (2024), conduzido com 216 jovens de diferentes regiões do Brasil, o fácil acesso a vídeos violentos nas redes sociais tornou alguns jovens menos sensíveis à morte, abuso sexual e crimes hediondos.
E as políticas de moderação de conteúdo e combate a discurso de ódio e desinformação não têm impedido efetivamente a circulação de conteúdo violento, discursos de ódio e notícias falsas.
Eles planejam (não está claro o significado de “planejar” neste contexto), interromper as notificações enviadas pelo aplicativo entre 10 da noite e sete da manhã além de lançar uma função que permite aos pais checar os destinatários de mensagens recentes enviadas pelos filhos através do aplicativo.
O soninho dos pequenos agradece. A checagem pode ser feita no link “controles de família” do menu de configurações do aplicativo.
“Ouvimos os responsáveis pelos cuidados, eles sabem o que é bom para as crianças e adolescentes.” Adam Mosseri, diretor-geral do Instagram
Segundo Adam Mosseri, diretor-geral do Instagram em post recente no seu perfil do aplicativo, as mudanças, promovidas dentro do guarda-chuva das recém-criadas “contas de adolescentes” (teen accounts), visam dar paz de espírito aos pais (peace of mind to the parents), além de proteger os donos das contas.
Elas foram priorizadas com base nas três reclamações que ele diz serem as mais comuns entre pais e mães. A primeira é sobre pessoas estranhas entrando em contato com os jovens donos das contas por meio de mensagens, na sequência vêm a preocupação sobre o tipo conteúdo que os jovens consomem e o excesso de tempo gasto online.
O verbo gastar, tradução literal do spend usado por Adam na sua fala, cai bem neste contexto. Não é necessariamente tempo bem investido, mas tempo gasto em algo que não constrói muita coisa. Pode divertir, certo? Claro. Em doses calculadas, pode sim. E quem não gosta de diversão? Mas para crianças e jovens, numa idade em que o cérebro está se formando, a exposição aos excessos pode, sim, ser prejudicial. Da forma como a plataforma foi pensada, o uso pode inclusive viciar.
Adam, pai de três, solícito e de visual moderninho nos posts do Insta, veste camisas ou camisetas em tons neutros, óculos redondos com aro de tartaruga e pulseira dourada de rapper. Ele disse em entrevista ao New York Times que o foco das mudanças foi definido com base nas demandas dos pais, mães e responsáveis: “Eles sabem mais do que qualquer senador, legislador, funcionário da empresa ou agente regulamentador”.

Discurso que oculta intenções claras e nefastas: “fazemos o que vocês pedem, se não pedem, não fazemos. E se fazemos e não der certo, a responsabilidade é de quem pediu”. É no mínimo curioso ele não mencionar o ponto de vista dos jovens e dos criadores de conteúdo nessa tal abordagem do que seria um ambiente seguro no Instagram.
E para os pais, mães, educadores, cuidadores e tantas outras pessoas atordoadas com o elefante na sala, o que fazer?
Estudar as mudanças propostas para avaliar se pouco a pouco o uso excessivo dá uma trégua é um bom começo. Digo pouco a pouco, pois as mudanças em questão ainda não foram implementadas no Brasil e para surtirem efeito, devem vir acompanhadas de uma reviravolta radical de postura da plataforma quanto a responsabilidade pelo conteúdo e personagens que transitam ali. E esse ainda não parece ser o caminho.
No Brasil e na Europa, as tratativas de regulamentação evoluem lentamente e também estão sujeitas a pressões e lobbies. Aqui, o debate tem nas fake news e discursos de ódio seu principal alvo.
Jogar a responsabilidade nas famílias é injusto, não? Sim. E muito. O Instagram sabe muito bem quais são os agentes nocivos da plataforma, especialmente para as crianças e adolescentes. A Meta, ex-Facebook, em seu due diligence, análise de risco que antecedeu a compra do Instagram em 2012, certamente ponderou tudo isso antes da aquisição. Especulo inclusive que o resultado da análise possa ter influenciado para baixo o valor da empresa, vulnerável aos tais agentes nocivos desde o nascimento.
Mesmo assim, levaram anos para implementar mudanças, que, honestamente, são incipientes diante da vastidão de prejuízos sociais que as redes provocam. Falamos aqui de questões seríssimas, que em alguns casos custam a vida de seres humanos em formação, como pedofilia, bullying, extorsão sexual, exposição a conteúdos que promovem a automutilação e distúrbios alimentares.
O discurso de “ser flexível e aberto” às demandas de quem sabe mais, ou seja, no discurso deles, pais e mães, é conveniente para o Instagram. Quanto mais tempo levam para implementar mudanças que impactam em queda de audiência e no balanço geral de número de usuários, mais faturam com publicidade.
Esse tem sido o modus operandi de gigantes de tecnologia desde o princípio: deixar a corda esticar até o limite e, na pressão, como se nunca tivessem percebido as atrocidades escondidas no caminhão de dados que processam, reagir lenta e “solicitamente”.
Queremos que nossos jovens e crianças fiquem bem
Se além da maratona que é educar crianças e adolescentes no século 21, você tem uma vida social e profissional ativa, é imprescindível acompanhar o avanço das redes sociais sob uma perspectiva mais ampla. Seu poder e avanço frenético em vários aspectos das nossas vidas nos manda uma mensagem bem clara: elas estão aqui para ficar. É melhor entender o que elas são de fato para fazer um uso mais racional e consciente e pressionar por regulamentação e segurança, do que continuar refém.
Se você cuida de crianças ou jovens com idade até 18 anos, que passam várias horas do dia com a cara grudada no celular, é importante se interessar e se informar sobre as redes sociais e seus impactos na vida deles. Uma infância e juventude dignas e um futuro saudável, dependem disso também. Não queremos e não podemos controlar tudo, mas desejamos que eles fiquem bem.
Como opera a mente de Mark Zuckerberg: o que ele faz e fala importa
Mark Zuckerberg, o todo-poderoso da Meta, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp, etc., é um dos homens mais ricos do mundo. Ele inclusive construiu um bunker no Havaí. Pesquise aí: “Mark Zuckerberg bunker”. O homem construiu um abrigo à prova de fim de mundo. Ele acredita que na iminência do fim do mundo, o dinheiro vai salvá-lo e aos seus. Como você provavelmente não é a mulher, o filho, um parente amado ou amigo muito próximo do Mark, não será convidado para se hospedar no bunker durante uma catástrofe. Que sinistro.
As esferas pessoais e profissionais da vida de pessoas que têm em mãos nossos dados, nossas vidas e a vida das nossas crianças e jovens, estão totalmente ligadas. O que o Zuckerberg fala e faz, importa. Como ele vive, importa. Manda sinais. Ser e agir de forma ética, íntegra e empática é o mínimo que os CEOs das plataformas tecnológicas precisam fazer. Aliás. Qualquer CEO, mas, mantenhamos o foco. Ou será que essa brincadeira de privacidade escancara serve só para nós, seus vassalos, ops, seus usuários?
Pense bem, na cabeça do Mark, apenas ele e seus entes queridos têm direito à Arca de Noé. Para o resto, ou seja, to the rest of us, os escombros.
Elon Musk, outro titã da tecnologia, é a prova concreta de que afetação, projetos fálicos e ideações de dominação mundial podem ter consequências sérissimas para nações e indivíduos. Ele usa o X (ex-Twitter), sua recém adquirida rede social, para fins pessoais e ideológicos de disseminação de sua crença política. Na iminência do fim do mundo, ele tem terreno garantido em Marte.
Se não for para proteger suas crias da hiper exposição aos excessos e riscos que o uso indiscriminado das redes sociais representam, que sua busca por entendimento seja para decifrar o significado de “sucesso” para quem domina os meios nos dias de hoje.
O faturamento multibilionário de plataformas digitais como Meta, Google, YouTube, TikTok, Snapchat, para citar as mais tentaculares, é obtido através da venda da nossa atenção. Elas estão enriquecendo cavalarmente às custas dos minutos, horas e dias que passamos deslizando os dedinhos pelos seus conteúdos.
Faturamento obtido cada vez mais a partir da exploração dos nossos dados, comportamentos e atitudes. Tudo cuidadosamente armazenado nas nuvens. Como se o céu fosse o depósito de um mega acumulador de quinquilharias.
A inteligência artificial aplicada ao processamento de imagens e conteúdos de consumo amplo, é, também, a resposta dessas lindonas todas para nós, após anos de coleta, armazenamento e organização dos nossos dados. Os dados fornecidos por nós são a base de uma tecnologia que exerce cada vez mais domínio sobre a gente. Uma estética, no mínimo, canibal.
O quê recebemos em troca da nossa atenção?
Nós, em troca, recebemos informação, diversão, contato com os integrantes das nossas tribos, a conveniência de receber comida, remédio, livros e tudo o que a gente imaginar, rapidinho, em casa. Programamos nossas viagens, falamos com a vovó a quilômetros de distância, trabalhamos remotamente. Tudo isso é muito bacana. Em alguns casos, libertador. E se tornou, aliás, indispensável. Mas a gente paga por tudo. Nada é de graça. Pagamos duplamente, com dinheiro (no Brasil, com pix), e com a nossa atenção. Atenção despendida inclusive para garimpar informação na avalanche de fake news.
Jamais saberemos o impacto geral e real dessas mudanças na voz oficial da plataforma. Talvez tenhamos pistas. O que podemos fazer é especular se ao longo dos meses elas surtem efeito em casa, ficar atento ao encaminhamento da regulamentação das redes sociais no Brasil e sempre que possível, colocar pressão por salva-guardas.
E de preferência, não entrar em pânico.
Se você estivesse diante do Mark Zuckerberg agora e pudesse fazer uma pergunta pra ele, qual seria?
A minha seria que livros ele vai ler durante sua temporada no bunker havaiano.
Esse texto faz parte da série “As caixas de pandora do mundo invertido”. Uma investigação sobre o estado atual das redes sociais e outras traquitanas da esfera digital das nossas vidas, seus impactos e a importância de decifrá-las para regular sua influência brutal no nosso dia-a-dia. Para receber as atualizações, informe seu email abaixo: