Como ajudar nossas meninas a crescer, felizes, criativas, independentes para ser e fazer o que quiserem das suas vidas?
Originalmente publicado em 2018
Nesta semana, começaram as aulas da Sophia, minha filha, depois das generosas férias de verão. Papai Noel substituiu o gorro do Natal pela sunga carnavalesca e assim oficializou o início do ano no calendário dos trópicos.
Soso tem 8 anos e sua curiosidade, imaginação, sede de criar, conquistar e brincar estão mais aguçadas do que nunca. Não sei o quanto disso pode ser atribuído à escola. Acredito que muito, mas ela se desenvolveu e, no ano passado, sentimos que ela queria mais riscos, informação, provocação e decidimos tirá-la do quentinho e mudá-la de escola.
A Manuela, sua amiga inseparável e uma das mais próximas de um grupo que está unido desde os dois anos, se mudou para a mesma escola. Estão juntas no mesmo barco, cheias de expectativas. Afinal, o “novo” exerce fascínio, mas dá medo, dor de barriga, gera ansiedade. A nova escola promete ser um capítulo de muitas provações, novidades e descobertas. Elementos novos, como amigos, professores, metodologias, disciplinas, problemas e espaços entram em cena.
Mas mudar é bom. É fundamental para a gente crescer. Dói e tira o chão, mas, em perspectiva, na maioria das vezes, liberta. Minha primeira grande mudança aconteceu aos 17 anos, quando fiz as malas no interior, rodeada de carinho, família e macarronada, e vim parar na capital, rodeada de poluição, um avô “Macgyver” e restaurantes por quilo. Alguns anos e muita porrada depois, realizei que essa mudança, suicida à primeira vista, especialmente nessa idade, foi crítica para a construção da minha independência, personalidade e felicidade.
Um dos pontos comuns entre mim e a Sophia, e que me sensibiliza profundamente, além de sermos mãe e filha, é o fato de sermos mulheres em uma sociedade desenhada por e para homens. Alguns avanços importantes ocorreram entre minha mudança para São Paulo e seus tenros oito anos, e nós, mulheres, conquistamos terreno. Uma mulher ocupou o cargo de presidente do país, Oprahs e Catherines brazucas debatem abertamente sobre temas relevantes para nós, cadeiras em faculdades de medicina são ocupadas por representantes de todos os gêneros. Continuamos, no entanto, muito distantes de uma realidade necessária.
Ainda somos pobremente representadas no congresso. A cada 7 segundos (leu certo, 7 segundos), uma mulher é vítima de violência física no Brasil, conforme o Instituto Maria da Penha e, com exceções, somos a minoria em cargos de liderança de praticamente todas as indústrias e carreiras como artes, ciências, esportes e tecnologia.
É tanta criptonita que dá preguiça. Mas ai me lembro da Sophia e de todas as meninas que como ela estão se preparando para desbravar o mundo e retomo as forças para ir atrás de outra realidade para todas nós.
Tanto a Manu quanto a Sophia curtem e praticam esportes. A Manu não apenas curte futebol, como nasceu esculpida para o esporte. Para ela, jogar futebol é tão natural que assusta, afinal, não estamos acostumados a identificar um talento natural em um serzinho tão jovem. Ela não nasceu num campo de futebol ou ao lado de jogadoras, ou jogadores, mas com o estímulo dos pais e um DNA de apaixonada pela bola, o gosto dela pela prática só cresce. E, se fomentado, pode lhe trazer a imensa satisfação que o domínio de um esporte proporciona, ou até mesmo, uma vaga na Copa do Mundo. Mas, por enquanto, tudo o que ela quer é brincar de jogar.
O futebol fazia parte da rotina delas na escola anterior, mas algumas vezes ouvi a Sophia dizendo “mamãe, os meninos não deixam as meninas encostarem na bola”. E eu sempre respondia: “o jogo é para todo mundo, cava que eles te darão espaço de um jeito ou de outro”. As porradas rolavam, mas aos trancos elas conseguiam jogar e pouco a pouco, juntas, conquistaram respeito e espaço.
Na escola nova, Sophia e Manu terão acesso a atividades extracurriculares diferentes das que tinham no passado, entre elas, aulas de futebol reforçadas e de mundo maker, atividade que promove interação e criatividade através do uso de matérias-primas, ferramentas e programação, para desenvolver e brincar, por exemplo, com robôs.
Quando matriculamos as duas nessas atividades, uma realidade esmurrou nossa cara: elas eram as únicas meninas. E agora, o que fazer? Nessa idade, as crianças buscam cumplicidade e inclusão, e meninos não são necessariamente inclusivos quando se trata de futebol. Se não fizermos nada, a chance delas desistirem é grande. Afinal, vai deixar de virar brincadeira para se transformar em campo de batalha e obrigação.
A solução fácil seria matriculá-las em uma escola de futebol só para meninas (se houvessem várias escolas de futebol com quórum, seria fácil mesmo), mas a fácil não questiona ou muda essa realidade inconveniente.
Usei futebol e mundo maker para exemplificar, mas se olharmos bem, quase tudo, com exceção de dança, é território masculino. Como ajudar nossas meninas a crescer, felizes, criativas, independentes para ser e fazer o que quiserem das suas vidas? Como derrubar barreiras que deixam tudo mais complicado e eliminar de uma vez por todas dos diálogos familiares, dicionários, livros, filmes, desenhos animados, escolas, novelas a famigerada frase: “Isso não é coisa de menina”?
Eu não sou PHD em educação infantil, mas sou mãe, mulher e já fui menina, e quero compartilhar alguns pensamentos e ideias com pais, mães, cuidadores e educadores:
· Conversem com seus filhos e filhas sobre a importância de incluir as meninas em atividades historicamente praticadas por homens. E sejam persistentes, essa realidade não vai mudar do dia para a noite.
· Estimulem e promovam a prática de atividades por todos os gêneros nas escolas. Lembrando-se que algumas delas precisam de um empurrão, por exemplo, futebol para as meninas, aula de culinária para os meninos (apesar dos grandes chefes serem homens), programação (código) para as meninas, para mencionar alguns. No caso do futebol, são séculos de promoção da prática masculina, na TV, por exemplo.
· Apoiem as meninas na busca por posições de liderança nas atividades e brincadeiras escolares.
· Cuidado com o que você fala (ou faz), as palavras (e as atitudes) têm muita força e se você diz que isso ou aquilo não é coisa de menina, uma hora elas vão acreditar e desistir.
· Compartilhem histórias de mulheres e meninas que cruzaram mares, lideram escolas, venceram campeonatos, e são felizes com suas escolhas.
· Respeitem e apoiem as mulheres à sua volta. Tudo é absorvido por uma criança, se você se refere a uma mulher como um ser inferior ou de forma pejorativa, uma hora ou outra ela vai acreditar que esse comentário vale para ela também.
Uma cultura mais inclusiva se fomenta desde a infância. A inclusão fomenta a criatividade, a economia, cria laços improváveis e alimenta a alma.
Nossas meninas agradecem.