Janis e Rita

Janis Joplin e Rita Lee, figuras icônicas do rock'n roll, que moldaram a adolescência da narradora. As memórias da família e o impacto das artistas no cotidiano, em contraste com a caretice dos anos de escola primária católica.

Janis e Rita

Janis Joplin e Rita Lee, figuras icônicas do rock'n roll, que moldaram a adolescência da narradora. As memórias da família e o impacto das artistas no cotidiano, em contraste com a caretice dos anos de escola primária católica.
As roqueiras Janis Joplin e Rita Lee, lado a lado, apoiadas em uma de suas mãos, usando óculos de aro redondo e lentes coloridas.
Janis Joplin por aí e Rita Lee no lançamento do seu Livro em 2021.

Janis nasceu em 19 de janeiro de 1943 no Texas. Em seu traje tie-dye pink e roxo, ela me contou aos gritos que esperaria o delivery de uma tevê em cores encomendada por Deus, todos os dias, até as 3. 

“I wait for delivery each day until three.”  

Quase cinco anos depois, em 31 de dezembro de 1947, abaixo da linha do Equador, em São Paulo, nasceu Rita. No reino de Afrodite da ruiva roqueira, o amor sempre passava dos limites.

Eu matava aula para me esparramar no sofá dourado da sala e ouvir da boca delas devaneios que, mesclados às ladainhas das freiras beneditinas missionárias de Tutzing no Colégio Cristo Rei, me ajudaram a atravessar a adolescência. 

No claustro das freiras, Deus era homem e mandava. No universo paralelo de Janis Joplin e Rita Lee, a vontade das mulheres era soberana. Decidi viver conforme as regras das duas. 

A foto de uma Janis descolada, feliz e livre, estampada na parede da catacumba que meu pai chamava de escritório — um cubículo recém-construído no subsolo da casa, ao lado da adega, me fascinava. Lá, ele brincava de tudo o que não podia quando estava na sala de cirurgia com o bisturi nas mãos para “operar tripas”.

Além de Janis, compunham seu mix surrealista um bongô, um par de chifres de touro, bolachas de chopp, uma taça de vinho prateada, três canivetes, uma adaga, uma coleção de revistas da National Geographic enfileiradas com as dobras amarelas cintilando na penumbra e vários álbuns de fotos.

Uma vez ele matou a chineladas um rato que desfilava tranquilo no topo estreito da grade da bicama, estacionada na antessala da adega. Era ali que a gente pegava no sono embriagado pela alquimia de aromas de vinho, tinta fresca e inseticida. Eu, minha irmã, meus irmãos e um rato equilibrista. Ai do roedor se chegasse perto das roqueiras. Morreria por um tiro de escopeta do doutor, e não pelo impacto da sola de borracha de um chinelo que não solta as tiras.

Num dia desses, um pouco antes da morte de Rita Lee, enquanto eu ajudava minha filha a se arrumar pra uma festa, cortei as mangas de umas camisetas tamanho G que finalmente teriam uma finalidade de uso. Entre elas, uma preta, com a Janis Joplin estampada. Presente antigo do meu pai. Grudei a camiseta no rosto e senti o cheiro dele. Uma alquimia de almíscar, cigarro, éter e rock’n’roll. Na mesma hora, ouvi Janis sussurrar no meu ouvido para arrancar mais um pequeno pedaço do seu coração.

“Have another little piece of my heart now, baby.” 

Glória a Janis e Rita nas alturas.

Teria sido osso viver apenas da pureza das freiras.

 

Janis Joplin – Mercedes Benz (Official Audio)

 

Janis Joplin no escritório do meu pai
Janis Joplin no escritório do meu pai. Foto: Fábio Cerávolo

 

Escrita originalmente em 10 de maio de 2023 em homenagem às musas Rita Lee e Janis Joplin. 🫀

Crônica destacada na antologia “Prêmio Off Flip 2024“.

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