Agora sim. Teto, oxigênio e terra firme.
Minha nave pousou em Tóquio no começo de 2019 para uma temporada e esse é um dos posts sobre as minhas primeiras impressões e sensações.
Elas podem conter vieses, ainda mais em uma cultura tão complexa de decifrar, mas também exalam o frescor da primeira vez.
Eu nasci no Brasil, no interior. Vivo e trabalho na cidade de São Paulo há décadas. Já morei na Alemanha durante a faculdade. E alguns meses em São Francisco.
Mas vir para o Japão, agora, foi, sem dúvida, meu desvio de rota mais radical.
Minha mudança para cá não foi planejada. Eu não acordei um belo dia com um plano mirabolante: “Vou para o Japão!”. O Japão me chamou, e eu não resisti.
Vim espiar.
Vim a trabalho. E para alimentar minha vontade de explorar e meu impulso de imaginar. Estar aqui simboliza a conquista de um mundo intrigante, desconhecido e perigoso.
O fato de eu ter que tomar a decisão entre o primeiro e segundo turno das eleições presidenciais de 2018 no Brasil, ajudou. Estar aqui neste momento tem um quê de exílio.
Talvez de cabeça para baixo a minha vista fique menos turva. Pois quando eu saí do Brasil no começo de 2019, mesmo depois de uma cirurgia dolorosa de miopia, estava difícil enxergar um presente e futuro dignos para uma nação absolutamente desigual.
Não dá para ter noção do que significa viver e trabalhar aqui antes de vir. E para um ser inquieto como eu, era preciso sentir na pele.
A vastidão de ficção, poesia, caos, obediência e sordidez que eu vejo na superfície e no pequeno extrato do submundo japonês que tive a oportunidade de experimentar até agora são dignos de contar.

Eu sempre tive uma tara pelo Japão. Talvez ela tenha uma explicação, afinal, o Japão é logo ali para os brasileiros. Eu prefiro imaginar que a minha intuição me trouxe.
Mas vamos aos fatos.
Eu nasci em um interior paulista repleto de netos e bisnetos de imigrantes japoneses. Minha mãe (não japonesa) fazia ikebana. Meus irmãos, judô. Tive muitos amigos japoneses na infância, um deles era o Murakami, ‘Mura’, dono da joalheria (não o escritor japonês) e outra, a Letícia, que estudava comigo e era minha vizinha. Os pais dela eram japoneses filhos de imigrantes, e a cultura japonesa ainda estava muito impregnada na vida deles.
Meu pai disputou na unha sua vaga de medicina em São Paulo com os japoneses. Minha irmã, médica, namorou um médico japonês na faculdade. Meu irmão, também médico, é casado com a Dani, a japonesa mais corajosa que eu conheço.
As minhas muambas paraguaias prediletas de infância eram borrachas, papel de carta e lápis ilustrados com personagens japoneses e Hello Kitty.
Eu desenhava avidamente mangás de olhos gigantescos, vivos e brilhantes (para minha desgraça, minha mãe jogou tudo fora). Várias marcas japonesas fizeram parte da minha vida e infância: Atari, Canon, Nikon, Sony, Yamaha, Honda,…Tenho até hoje a cicatriz na coxa direita da queimadura no escapamento da Honda CB400 do meu pai.
O olhar da fêmea
A pele que eu habito é de fêmea, portanto, esse será meu primeiro recorte.
É preciso ter muito estômago para ser mulher aqui. O tempo pode tunar minha percepção, mas neste momento eu vejo, de fora, submissão, casamentos arranjados ou “necessários” para a preservação do status quo e muitas bizarrices muvucadas no subsolo.

No ar, fica o eterno destempero de que a única fórmula para um “lar feliz” é uma família constituída por um casal de heteros, com filhos muito bem educados e obedientes e que falam bem baixinho quando estão autorizados. Que mal tem isso Fernanda? Se você não vê o mal, eu te empresto meu óculos com a graduação anterior a minha cirurgia de miopia.
Extremos e exceções existem em qualquer cultura, aqui eu falo sobre o que me chamou a atenção como padrão do que observei na cidade de Tóquio, nas minhas andanças pelo bairro onde moro, bairros vizinhos e no meu trabalho. Ainda tenho muito a explorar.
Hoje, apesar de 70% das mulheres em fase ativa trabalharem, percentual que representa uma revolução em relação a décadas recentes, o ambiente ainda é muito hostil para elas. Os japoneses precisam comer muito arroz com feijão, ou melhor, ramen, pra serem considerados “inclusivos”. Nós, brasileiros, temos a moral bem baixa em termos de representatividade, igualdade e inclusão, mas apesar de eu sempre ter ouvido sobre o histórico milenar de submissão aqui, fiquei chocada com o grau.
Aqui, as mulheres são obrigadas a disputar ferozmente um espaço na mesa, e quase justificar sua presença. Eu, mesmo sendo gaijin, ou talvez em função disso, sinto a atmosfera rarefeita em várias ocasiões. Muitas, inúmeras, diariamente.
Fernanda, mas tem muito lugar no mundo que é assim. Olha o Brasil! Pois é. Esse é o ponto. O Japão, dizem, já é o futuro, mas nesse aspecto, tão relevante para a construção de uma sociedade mais justa, assim como os brasileiros, os nipônicos (a maioria para ser justa com os poucos que lutam para mudar) são medievais.
O machismo aqui é arraigado. E cuidadosamente delineado e perpetuado no desenho de uma sociedade hierárquica, organizada em castas, onde está muito claro quem manda e quem obedece, deixando assim pouquíssimo espaço para espontaneidade e aproximação genuína.
E isso causa um abismo gigantesco entre as pessoas muito difícil de transpor. As taxas de depressão entre jovens são altas, idosos morrem sozinhos nas suas casas, relacionamentos amorosos genuínos são raridade.
Ou seja, quem não late, leva mordida.
Japão é terra dos samurais, ninjas, gueixas, lutadores de sumô, kamikazes… É terra fértil do submundo. É terra de vísceras e almas seculares quase impenetráveis.
E isso faz turbinar meus sentidos.
O paraíso dos tesouros (e pesadelos) escondidos. Tóquio.