A criança Frankenstein

Nina sentiu uma ponta de alívio ao esticar o corpo na maca. O percurso de quase trinta minutos entre o local do acidente e os primeiros socorros foi tudo menos agradável.

A criança Frankenstein

Nina sentiu uma ponta de alívio ao esticar o corpo na maca. O percurso de quase trinta minutos entre o local do acidente e os primeiros socorros foi tudo menos agradável.
Colagem by LabForGirls

“Beto, será que a menina rachou a cabeça?” 

“Mãe, por favor, fica quieta. Sua morbidez só vai deixar ela agitada. E dá licença que a gente tá indo pra sala de cirurgia.”  

Nina estava aliviada. Enfim largaria o corpo na maca. O percurso de quase meia hora entre o local do acidente e os primeiros socorros, foi tudo menos agradável. Em vez de uma ambulância bem equipada, ela viajou ao lado de três passageiros, todos em estado de choque, no banco de trás de um carro caindo aos pedaços e com a visão parcial do talho hemorrágico em seu couro cabeludo no espelho retrovisor.

Dali de baixo, na horizontal, ela buscava no rosto e nas atitudes do pai pistas sobre a gravidade da situação. Médico? Pai? Pai médico? Exercício inútil. O olhar incrédulo e as ordens num tom de voz controlado e diretivo ofuscavam seu estado de espírito: saiam do caminho, andem mais rápido, a equipe já está na sala? Ela vai precisar de tomografia. 

Grudado à maca, ele segurava a grade de proteção com a mão esquerda e alisava a testa com a direita. O maço de cigarros tilintava no bolso. É, pai, onde você ganha o pão é proibido fumar. Ele conhecia bem o trajeto. Passava mais tempo nos corredores daquele hospital do que em casa. Apesar do traquejo adquirido ao longo dos dez anos de prática médica, estava diante do primeiro caso de derramamento de sangue do seu próprio sangue. 

“Vou rezar”, emendou a vovó, que teimosa acompanhava o cortejo. 

Mulher e mãe de médico, a avó de Nina se tornou curandeira por assimilação. Até aquele dia, Nina nunca tinha visto o sangue escapar de seu rosto diante de moribundos. Agora, ela estava lívida. O que não era um bom sinal. 

“Poxa, vó, crânio rachado?”

“Fique tranquila, Nina, seu pai vai cuidar de tudo.” 

Além do dom da cura, a avó sempre foi uma exímia dramatizadora de causos do cerrado escaldante onde criou sua prole. Uma vez, teceu em detalhes a história de um bebê que morreu queimado nos braços da mãe. A pobre teria deixado o cobertorzinho da criança salpicar na chama do fogão a lenha. Além de perder o filho e se queimar toda, na versão da nona, ela levou a culpa pela suposta negligência. 

A plateia crescia e o drama em torno de Nina se materializava. A iluminação branca do hospital ardia nos olhos. Estava tudo bem diferente das vezes em que ela corria por ali para xeretar as salas de instrumentos de tortura ou comer no refeitório dos médicos. Nessas ocasiões ela era a filha do doutor num playground ao revés. 

Agora estava inerte, moribunda, com uma ferida na lateral direita da cabeça que começava na fronteira entre o rosto e o couro cabeludo e acabava sabe-se lá onde. Tinha um corte nos lábios e uma falha nos dentes da frente. O dente perdido era sua maior preocupação.  

Como encarar os amigos na escola? Nina se defendia bem dos pirralhos, mas desta vez era diferente. Estava na berlinda. Crianças, bem-vindas ao primeiro dia de aula. Se divertiram? De lição de casa, escrevam uma redação de vinte linhas com o tema “Minhas férias”. A dona Hortência, professora de português, era uma sem-noção. Coitada da Nina, escondida lá no fundão, com vontade de mandar a profe à merda e desaparecer, e ainda tendo que discorrer sobre a parte boa da sua “experiência”. 

A sala de cirurgia estava um gelo. O cheiro férreo de sangue misturado à alquimia dos remédios impregnava a imaginação de Nina de pensamentos sombrios. Ela não tinha coragem de olhar sua silhueta de criança Frankenstein projetada no espelho suspenso. Pra quê? Não ia entender nada mesmo. 

Enquanto a equipe médica se preparava, ela brincava de esfregar as pontas dos dedos nas mechas de cabelo empapadas de sangue. Conforme os fios secavam, dava para sentir pequenos cristais, como grãos de areia, se soltando e caindo no lençol que cobria a cama cirúrgica. Grãos minúsculos, cor de beterraba. 

Entretida com o emaranhado de fios tingidos, ela começou a se lembrar da sequência de acontecimentos das horas anteriores à sua entrada triunfal no hospital. Era um bom sinal. Sua cabeça ainda funcionava.

Tudo começou com o pai e a mãe discutindo sobre a quantidade de bagagem que levariam na viagem. 

“Teresa, além das malas, vamos carregar cinco crianças na carroceria. Será que você não aprende a viajar leve?”

Era tarde e Nina estava louca para ir embora. No dia seguinte, bem cedo, ia visitar sua loja predileta para buscar seu toca-discos. Tudo o que ela queria naquelas férias era ouvir sua coletânea vintage de LPs do Queen. 

Cessado o debate habitual entre os pais, Nina estava feliz com a conquista do assento mais desejado na caçamba da caminhonete, a caixa da roda.  Ela se sentou na saliência em forma de montanha do lado direito. Rodrigo, seu irmão do meio, se sentou do lado oposto. Dali, pela janela de plástico transparente da capota, eles espiavam a estrada. A irmã, o irmão mais novo e a prima, crianças pacificadas, se espalharam pelos colchonetes do assoalho numa clareira entre malas e sacolas. Os quatro adultos ocuparam o único banco na cabine do veículo.

Finalmente partiram rumo a São Paulo. Seriam sete horas de estrada. O pai de Nina não tinha autorização para seguir até o destino com carga viva — um bando de crianças — na caçamba. Viajar à noite enganaria os guardas. 

Sua estratégia homicida teve efeito paliativo. O trem da alegria não chegou nem a sair do raio autorizado de cem quilômetros. 

Um obstáculo. Uma freada. Uma pancada. Uma ambulância capotada com o tranco da caminhonete. Estilhaços. Medo. Escuridão. Um adulto puxando as crianças de um emaranhado de malas. Uma caminhada breve pelo acostamento. Os faróis iluminando a estrada. Motoristas e passageiros espiando das janelas dos carros. Nina vagando sem rumo em busca de um dente perdido. Parte da família de carona numa Belina Ford branca, conduzida por um motorista que gentilmente se ofereceu para levá-los ao hospital. A iluminação de teto da Belina focando o corte na cabeça de Nina. Tia Renata tapando os olhos de Nina para impedir que ela visse a cabeça aberta refletida no espelho retrovisor. As sirenes da polícia se aproximando. 

Nina curtiu o trono de rainha da viagem por vinte minutos. Na chegada ao hospital, notou que fora a única a subir numa maca. Rodrigo sofreu um corte leve na cabeça. 

A sedação quicou. Nina apagou. Acordou. Apagou de novo. Acordou.

“Ufa, resisti!” Levou as mãos à cabeça: “Virei múmia?”

Ela nunca conversou com a avó sobre o dia do acidente. Sabe que ela saiu de casa na pressa para encontrar o filho, a nora e os netos assim que recebeu a ligação do hospital. 

As conversas entre as duas giram em torno das aventuras de Nina pelo mundo e os casos escabrosos que a avó se diverte em contar.  

It’s alive. It’s alive.

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