Empregos dignos, bem remunerados e que se acomodem às necessidades das mulheres em diferentes fases da vida, são raros. Encontrá-los, uma ciência.
Além do preparo individual, há barreiras estruturais e sistêmicas que podem transformar essa busca num verdadeiro pesadelo.
Mas está cheio de gente trabalhando para provar o contrário.
Mulheres que decidiram calar as vozes que insistem em vetar seu trabalho em certas áreas ou em determinadas fases da vida, que pregam que lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos, dos pais idosos, que mulher não segura o tranco, e uma infinidade de outras falácias milenares.
Não é louco pensar que em pleno século 21 ainda tenhamos que ter essa conversa?
Até que mais mulheres ocupem posições de poder e de tomada de decisão na política, na chefia de empresas, na formulação de leis, na educação universitária, nas indústrias de infraestrutura, em hospitais…, o debate e o fortalecimento da confiança e das condições de trabalho para todas as mulheres são fundamentais.
É possível arrumar um emprego remunerado, mudar de chefe, de carreira, voltar a estudar ou criar seu novo emprego em diferentes fases da vida.
Essa é a parte simples e iluminada da resposta. A parte que a gente lê e memoriza para resgatar quando for difícil encarar a novela que é achar um bom emprego.
Os dados1 e causos de mulheres profissionalmente ativas estão aí para provar que é possível encontrar emprego em momentos variados. É possível também criar seu próprio trabalho. A falta de experiência é um complicador, mas não um entrave.
Afinal, o que a gente mais vê e ouve por aí são pilhas de tentativas fracassadas para encontrar um emprego decente. Tentativas que pouco têm a ver com a vontade, o talento e a competência das mulheres.
A parte não tão simples da equação, é como começar essa jornada e como neutralizar as forças contrárias que pipocam no caminho.
Muitas oportunidades naufragam antes mesmo de o barco da busca pelo emprego zarpar. Elas afundam em decorrência de falhas graves e seculares no acolhimento de questões vitais aos voos profissionais que as mulheres querem alçar.
Em seu livro Psicopolítica, o filósofo e escritor coreano Byung-Chul Han escreve que “quem fracassa na sociedade neoliberal de desempenho, em vez de questionar a sociedade e o sistema, considera a si mesmo como responsável e se envergonha por isso”.
Ou seja, além da tristeza por não encontrar um trabalho ou não se encaixar nele quando acha, a sensação residual que se tem é de que a culpa é nossa e não do sistema.
O mercado de trabalho brasileiro é brutalmente desigual. Trata e acomoda de forma precária as diversidades, especialmente as de raça, idade, classe social, deficiência e gênero.
No caso do gênero, algumas das falhas sistêmicas são a negligência nos cuidados de saúde feminina e LGBTQIAPN+, como a falta de suporte para prevenir as jornadas duplas de trabalho, os preconceitos em torno das transformações psíquicas e físicas no puerpério e na menopausa, as tentativas do Estado em legislar sobre o corpo das mulheres proibindo o aborto, a condescendência ao tratar as mulheres como seres frágeis e ineptos para certas atividades e o acolhimento precário no retorno ao trabalho depois da licença-maternidade.
A lista é grande e especialmente longa para mulheres em situação de vulnerabilidade. Se falarmos em gêneros não binários, então, a negligência por conta da invisibilidade é aguda.
Além dos esforços individuais, a criação e implementação de políticas públicas e a conscientização das iniciativas pública e privada são fundamentais para a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Independentemente da faixa etária e de outras questões que impõem barreiras hoje.
Que o buraco é fundo, a gente já sabe, mas além dele tem luz. E é atrás dela que a gente vai. Afinal, apesar dos perrengues, as mulheres conquistaram muito espaço e aumentaram sua presença em vários setores e níveis hierárquicos nas últimas décadas.
Viva! Tem luz. Como começar a busca por um (novo) trabalho?
“O que nos move não é a realidade, mas a ficção e os sonhos, a esperança e as ideias. Todo desejo é, nesse sentido, desejo do impossível, de uma vida mais intensa, mais dramática. Uma vida como lemos nos livros.” Laurence Devillairs citado no livro Somos Animais Poéticos, de Michèle Petit
Os caminhos são muitos e não excludentes. Vamos tateá-los.
Encontrar ou criar um trabalho bom é uma ciência com pitadas de sorte e doses generosas de habilidade para lidar com frustração, insultos e discriminação.
Tem gente com currículo imenso que não sustenta nem uma entrevista de emprego. E tem pessoas com um currículo fraco que não tardam para se dar bem.
Um currículo fraco pode ser suplantado por um desses enquadramentos, ou vários: pessoas bem relacionadas, articuladas, geniais, sortudas, descoladas ou integrantes do grupo estelar dos nascidos com a vida ganha. Estas últimas, quando decidem que querem mesmo trabalhar, tendem a encontrar emprego mais rápido.
Que mal há nisso? Para a finalidade do nosso debate, nenhum. Julgar é perda de tempo. É melhor intubar e saber com quem concorremos. E lembrar que nem tudo é técnica e conhecimento “literal”.
Em todos os casos, intenção, paciência, força de vontade, disponibilidade, persistência, perseverança, presença, seriedade e uma pitada de cara de pau são atributos de peso para iniciar sua busca. Se você não tem alguns deles, pense em como desenvolvê-los ou, no mínimo, suplantá-los com a técnica e os contatos.
Sozinho é difícil. Usar a criatividade e a intuição na busca de grupos e comunidades sérias é importante. Assim como se cuidar para não cair nas mãos de ideólogos disciplinadores, líderes de cultos, gurus do emprego e influencers divinos.
Se você é mulher, está viva e tentando entender como achar um emprego neste mundo cão, pode não ter todos os atributos listados acima, mas certamente tem vários deles. Portanto, está na pista.
Se faz parte dos demais grupos historicamente excluídos no Brasil, ou se está na interseccionalidade entre alguns eles, por exemplo, é uma mulher negra lésbica, uma mulher asiática trans; se já sofreu discriminação, por exemplo, em função de características do seu corpo ou deficiência, é fundamental se integrar a grupos e movimentos de emancipação, inclusão, desenvolvimento e apoio.
Grupos que fomentam o debate e a presença no mercado de trabalho através da articulação das políticas públicas, redes de assessoria jurídica e financeira e que dão visibilidade para vagas afirmativas. Vagas que são um direito duramente conquistado através de muita luta e que devem ser usufruídas.
O que os empregadores buscam na hora de escolher alguém para uma boa vaga?
Fazem parte de um currículo irrepreensível, ideal e convencional, uma boa formação universitária, experiência profissional extensa, fluência em outros idiomas além da língua materna, cursos técnicos, pós-graduação, habilidade em criar perfis em redes sociais, networking etc.
Se você se interessa por vagas em trabalhos artísticos, menos formais, as exigências mudam um pouco. E as salvaguardas, às vezes, também.
Encaixar-se num emprego convencional, formal, hierárquico, burocrático não está no topo da lista de desejos de muita gente. E está tudo bem.
Nossa, tenho 40 anos e não tenho nada disso no currículo. É meu fim!
Calma. Antes de começar a suar frio e fibrilar, respire fundo. Tente encarar suas fragilidades como os primeiros 100 metros de uma maratona. “Mas eu odeio esportes e não gosto de correr!” Ok. Pense em outra analogia, então.
Completar uma lista de habilidades robusta num curto espaço de tempo, digamos, uns dez anos, é um privilégio para poucos. Além disso, muita gente tem emprego bacana sem atender a todos esses requisitos. Nessa categoria dá pra encaixar, por exemplo, pessoas que nasceram bem de vida ou quem investe numa agenda de contatos polpuda. Formações completas assim, na maioria das vezes, demoram décadas, às vezes uma vida inteira, para se estruturar.
Os tijolinhos para construir uma história ideal de empregabilidade, que também vai gerar, ou pelo menos deveria gerar, satisfação, orgulho e prazer em qualquer indivíduo, não precisam ser empilhados na mesma ordem formal para todas nós. Aqui a boa e velha ordem da vida não rege: nascer, crescer, fazer muita merda e algumas poucas coisas boas, envelhecer e morrer. Está mais para um vórtex de acontecimentos e porradas que hora nos tira do eixo, hora nos traz de volta para ele.
Muita gente precisa interromper os estudos universitários, ou se privar deles, na juventude. As causas dessa impossibilidade de conclusão dos estudos são inúmeras: falta de grana para arcar com necessidades básicas, como aluguel e transporte; falta de tempo pela necessidade de trabalhar longas horas; cuidado dos filhos por ser pai ou mãe solteira; cuidado dos filhos ou outros familiares, pois o companheiro ou companheira trabalha; cuidar dos filhos em tempo integral por opção. Razões não faltam e julgamentos de amigos e familiares por decisões tomadas também não.
Diante de tantas barreiras, algumas pessoas simplesmente desistem de se graduar. Outros e outras optam por uma formação universitária tardia, quando tempo e dinheiro são menos escassos.
Há também trabalhos que não exigem formação universitária. A remuneração e a disponibilidade desse tipo de trabalho tendem a ser menores, mas um curso técnico curto e a experiência de um a dois anos podem servir como porta de entrada.
São vagas que, apesar de na média pagarem menos por exigir menos experiência, podem ser úteis para colocar a vida em ordem e ativar a capacidade de se envolver em algo totalmente novo. Além de botar o corpo e a mente em movimento, o que é gostoso demais.
Se você pudesse escolher um trabalho, qual seria?
Num mundo ideal a gente sabe o que quer da vida, inclusive da vida profissional.
Num mundo muito ideal, a gente praticamente nasce sabendo o que quer ser quando crescer. A coisa mais linda de ver é a combinação entre talento e aptidão numa idade tenra.
No mundo ideal, quando a gente vai procurar um trabalho, ele existe, é decente e bem remunerado.
Mas o mundo ideal não existe. Então a gente vai atrás do mundo possível.
Se estiver difícil decidir entre o que é possível e o que é ideal para você, pense primeiro nas questões práticas:
- Quanto tempo eu posso dedicar ao meu trabalho?
- Com que tipo de pessoas eu gostaria de trabalhar?
- Quanto eu preciso, posso ou quero ganhar?
- Eu consigo receber ordens?
Vale lembrar também que trabalho é trabalho, portanto o volume e a intensidade tendem a atenuar a parte prazerosa com o passar do tempo. O prazer, então, passa a ser etéreo, especulativo, indireto. Por exemplo, dá prazer ver o salário pingar na conta no fim do mês, ter um bom plano de saúde, um vale-refeição, um título rebuscado.
As tais satisfações indiretas, no entanto, proporcionam um tipo de êxtase bem diferente do prazer transcendente de comer uma comida gostosa ou ouvir uma música que você ama e te leva para um lugar totalmente inesperado.
Romantizar demais o trabalho pode ser a antecipação de um desastre. O trabalho pode ser bom, mas o chefe ou a chefa, um/uma mala. Você pode desconfiar que não está aprendendo nada, mas essa coisa de aprender o tempo todo também é ilusória. Pelo menos aprender formalmente. Ter pessoas interessantes, íntegras e brilhantes em quem se espelhar e para admirar também é bom, mas raro.
Se o chefe for abusivo ou o ambiente tóxico, são outros quinhentos. Neste caso, é preciso agir. Idealmente conversar, enfrentar e, em casos severos, denunciar. Em casos inadministráveis, pedir demissão, sair do lugar tóxico, espairecer, e só então pensar no que fazer para responsabilizar os causadores do estrago e da dor.
Sua habilidade não remunerada pode ser uma pista para um trabalho pago no futuro
Tenho uma amiga que trabalhou em gigantes de tecnologia durante muito tempo. Foi bem-sucedida e feliz no trabalho, mas chegou uma hora que deu vontade de sair. Ela se encheu e criou seu negócio. Hoje, assessora estrangeiros que querem comprar ou alugar imóveis na Catalunha.
Sua esposa, também minha amiga, sempre reformou e consertou coisas em casa. Uma habilidade que lhe deu prazer a vida toda, mas só fazia nas horas vagas. Ela também trabalhava em empresas de tecnologia. Mas se encheu. Há alguns meses começou a estudar marcenaria. Está firme no curso, amando e pensando em como criar um negócio a partir da sua nova habilidade.
O processo foi longo para as duas. Foram anos de persistência no trabalho corporativo, de tentativa de fazer funcionar. Por muito tempo funcionou, e bem, mas a hora de mudar chegou. A ideia do que fazer em seguida, na maioria das vezes, não vem com facilidade. São cursos, conversas, retrocessos, avanços, vontade de voltar para o lugar quentinho que já conhecemos, medos financeiros, mas as ideias aos poucos vão clareando.
Se você sabe fazer uma coisa muito bem ou sua intuição diz que você pode ser muito boa em algo que já tentou e testou no passado, mas poderia ter tentado com mais vigor, investigue. Você pode estar diante de um hobby que quer aprimorar, ou de um novo ofício potencial.
Se prepare física e psiquicamente para os trancos
Fadiga emocional e patologias psíquicas ou físicas precisam ser cuidadas. As mulheres tendem a cuidar de muita gente e se esquecer do seu cuidado pessoal.
Parece ingênuo pontuar isso diante do volume de conteúdo, mensagem, publicidade e conselhos aos quais as mulheres são submetidas o tempo todo na mídia, nas redes sociais etc. No entanto, falta de sono, apetite de mais ou de menos e excesso de pensamentos e ações autopunitivas e vitimizantes são uma barreira tremenda para a busca de um novo trabalho. São, na verdade, uma barreira para uma vida íntegra e feliz.
Dicas de influencers e manuais de autoajuda não resolvem. Profissionais sérios, bem indicados, não picaretas e de confiança, sim.
Achar que vamos estar inteiras e bem o tempo todo é ilusão, mas cuidar da saúde, fazer exercícios, caminhar, se exercitar ajuda, e muito.
Esse tema não se esgota aqui. Especialmente num momento em que os sinais claros do processo de sucateamento e deterioração de espaços e condições de trabalho exigem mentes e corpos ainda mais atentos para farejar enrosco.
Referências:
- Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho
64% das brasileiras 50+ têm dificuldade para serem contratadas - O futuro é maduro: a potência dos 50+ na indústria
- A dificuldade dos brasileiros de encontrar trabalho depois dos 50 anos: “Pessoas nos julgam como inferiores”
- Mulheres entre 40 e 59 anos aumentam participação no mercado de trabalho
- Mulheres no Mercado de Trabalho: Uma Evolução Constante Rumo à Igualdade
- Empregabilidade das mulheres no mercado de trabalho cresce no mundo
- “O ano de 2023 fechou com o maior número de pessoas ocupadas desde 2012, com 100,9 milhões de trabalhadores ativos. Um recorde histórico também de ocupação feminina totalizando 43 milhões de mulheres, à frente de 2022 que obteve 42,7 milhões.” Pnad, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)
“A taxa de participação feminina no mercado de trabalho cresceu de 35% em 1990 para 52% em 2023.” Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) ↩︎