O programa é uma parceria da Columbia com o Instituto Vera Cruz e outras universidades para a tradução e publicação de textos de alunos de programas de especialização em Escrita Criativa ao redor do mundo.
Participam desta edição escritores da Universidade Fudan (China), Paris 8 (França), Instituto de Literatura de Leipzig (Alemanha), Escola Holden (Itália) e Universidade Diego Portales (Espanha).”
Confira a página oficial do programa na Columbia.
Em 2023, o Instituto Vera Cruz e a Columbia University me convidaram pra participar de um troca-troca no programa Word For Word.
Eu traduzi a autora estadunidense Gigi Blanchard pro português. Ela traduziu meu texto pro inglês.
Gigi me ofereceu um trecho das suas memórias do cárcere “Orange não era meu new black”, que começam com a sua despedida abrupta da infância quando pai e mãe se separaram.
Sozinha, vagando pelas ruas da cidadezinha às margens do Rio Mississippi, em Illinois, Gigi se enrosca numa armadilha montada pra atrair jovens sedentos de pertencimento e aventura, e vai parar na prisão.
O elemento original, além do estilo da autora, é a perspectiva de uma mulher jovem, quando o padrão na literatura são memórias de homens em instituições prisionais.

A obra é uma não ficção em primeira pessoa que trata de um tema universal, o encarceramento na juventude, suas consequências e realidade, especialmente em uma cultura que sacrifica seus jovens ao submetê-los a leis e regras formuladas por e para adultos.
Pra mergulhar no texto de Gigi, eu retomei leituras sobre a vida do dramaturgo francês Jean Genet e li referências literárias à peça Esperando Godot, de Samuel Beckett.
Beckett teve sua peça, o longo e conflituoso diálogo entre dois moradores de rua, ansiosos pelo salvador Godot, que nunca chega, encenada em novembro de 1957 pra a população carcerária da Penitenciária de San Quentin, em São Francisco, na Califórnia.
A reação dos presos ao ver a peça foi descrita por Martin Esslin no seu livro O Teatro do Absurdo e observada por repórteres no dia da encenação.
Eles entenderam que o tal Godot, que nunca aparece, representava a interminável espera pelo lado de fora e o inevitável desapontamento pela vida em liberdade conquistada depois dos anos de encarceramento.
Segundo Sartre, em referência a Genet, “Liberdade é a possibilidade de escolha, da qual não podemos escapar. Em certo sentido, nosso destino é a liberdade. Somos condenados à liberdade. Genet, por um ato de escolha, cria-se a si mesmo: como ladrão, como adorador do mal e, por fim, como artista.”
Ao escolher a prisão em idade precoce pra revelar um aspecto da sua vida, assim como Genet, Blanchard provoca nos leitores a sensação de que só é possível entender o conceito de liberdade, quando se foi ostensivamente privado dela.
Os trabalhos traduzidos e as notas de tradução podem ser lidos aqui: