Da máfia ao “Resto do mundo”: o que o filme sobre o Facebook diz ao Brasil antes do segundo turno
“O Outro Lado das Redes”, longa-metragem sobre como o Facebook compactuou com o extremismo, estreia no Brasil três dias antes do segundo turno. Coincidência ou ironia? Diante dele, e do que vemos no feed, fica difícil ignorar o peso das plataformas nas urnas, e por que regular deixou de ser opção.
Quando foi a última vez que você escolheu, de verdade, o que ia ler, comprar, assistir ou em quem votar? Antes de você, o feed já escolheu. E, às vésperas de um segundo turno, a pergunta deixa de ser filosófica: quanto do nosso livre-arbítrio ainda é nosso?
Em 12 de outubro, a Meta teve de explicar à Justiça Eleitoral por que as visualizações de vídeos de Lula no Instagram apareceram zeradas por algumas horas. Culpou uma falha técnica global.
Lançado nos Estados Unidos em 9 de outubro, “O Outro Lado das Redes” chega aos cinemas brasileiros no dia 22. O filme ficcionaliza o vazamento de informações e dados que comprovaram a conivência de Zuckerberg, o dono do Facebook, com o avanço do extremismo na plataforma.
O episódio que inspirou o filme aconteceu em 2021 e ficou conhecido como “The Facebook Papers”. E os documentos vazados mostraram que a Meta (na época, Facebook) e sua alta cúpula diretiva sabiam do caráter nocivo do Instagram e do Facebook para a humanidade e não fizeram nada a respeito. Pelo contrário, lucraram com isso.
Este não foi o primeiro nem o último episódio a lançar luz sobre os bastidores de uma big tech, mas mandou um sinal inédito de alerta ao mundo: cuidado, o potencial devastador das redes sociais para a humanidade, além de real, é deliberado.
Foi a atitude corajosa da jovem Frances Haugen, então engenheira do Facebook, ao vazar documentos ao Congresso dos Estados Unidos e a um consórcio de jornais que incluía o Wall Street Journal e o New York Times que provou que as falhas de segurança da plataforma eram intencionais.
Em 2023, Frances Haugen lançou o livro “The Power of One: How I Found the Strength to Tell the Truth and Why I Blew the Whistle on Facebook”. Inédito no Brasil, o livro foi publicado em Portugal com o título “A Verdade sobre o Facebook”. O filme é inspirado nele, mas baseado principalmente na investigação jornalística que possibilitou sua exposição ao mundo e na figura de Haugen.
Um acontecimento de 2021 pode soar anacrônico nos dias de hoje diante da velocidade supersônica dos avanços digitais. Mas não é.
Olhar de volta para ele, como o filme se propõe, pode nos ajudar a entender, ou pelo menos tentar entender, a engrenagem por trás da opulência da extrema direita no ambiente digital, em especial na política. E desta vez, o foco da trama não é o controverso fundador da empresa, mas sim Haugen, vivida por Mikey Madison, vencedora do Oscar por “Anora”, a mulher que expôs ao mundo as “falhas” de segurança do Facebook.
Uma das falas de Jeremy Allen White, protagonista da série “O Urso”, que no filme interpreta o jornalista Jeff Horwitz, do The Wall Street Journal, é “A máfia seria um inimigo mais razoável de se fazer”.
Quem diria que a máfia seria mais previsível do que as masterminds por trás das redes sociais?
O ator Jeremy Strong, premiado pelo papel do escrotaço e imperioso herdeiro Kendall Roy na série Succession, interpreta ninguém menos do que Mark Zuckerberg, fundador, CEO e dono da Meta.
Desta vez, Aaron Sorkin, que levou um Oscar pelo roteiro de “A Rede Social”, assina o roteiro e também a direção. Em entrevista à Esquire, ele diz que, quando o Facebook foi criado, em 2004, era totalmente diferente do que é hoje:
“Seus mais de 3 bilhões de usuários equivalem a duas vezes a população dos países mais populosos do mundo. Um terço da população dos Estados Unidos se informa e lê notícias no Facebook. Isso é muito perigoso e tem um efeito corrosivo sobre todos nós. O brilhantismo de Zuckerberg é inegável, mas sua criação saiu totalmente do controle.”
Talvez a arte ajude a comunicar através do filme, a dimensão do dilema “humanidade x redes sociais” ao qual estamos submetidos. Veremos.
A data de lançamento de “O Outro Lado das Redes” no Brasil, 22 de outubro, a três dias do retorno dos brasileiros às urnas para decidir quem será o próximo presidente do país, numa eleição simbólica que pode pôr em risco quarenta anos de democracia, soa quase como uma ironia.
O vazamento protagonizado por Haugen não foi o primeiro escândalo midiático com impacto dantesco na política a afetar a plataforma.
Em 2018, no que ficou conhecido como o caso Cambridge Analytica, investigações jornalísticas, também possíveis em função de vazamento de dados internos, mostraram o papel trágico de uma falha de segurança do Facebook nos resultados da eleição que levou Trump ao poder em 2016. Na ocasião, dados de milhões de usuários do Facebook vazaram, sem consentimento, para fins de propaganda política pró-Trump.
No caso da Cambridge Analytica, apesar de Zuckerberg, CEO do então Facebook, atual Meta, negar qualquer viés político em favor da extrema direita de Trump, a simbiose entre as tecnologias sociais e os ideais conservadores estava selada.
Uma década por dentro das big techs
Ué, mas esses caras, os inventores das grandes tecnologias sociais do século, não eram os anjos protetores que desceram do céu para nos salvar da falta de informação, do tédio, da impossibilidade de comunicação e da dificuldade de formar vínculos?
É uma pena, mas… não.
Trabalhei em big techs por mais de uma década, sempre soube que não estava assando pão num mosteiro de freiras beneditinas, mas não imaginei que a agressividade em sugar nosso tempo e expor a humanidade a tanto lixo e ódio atingiria níveis tão altos. E, o pior: de forma intencional.
Tampouco imaginei que a identificação da ala conservadora política do Brasil, e de uma parte considerável da nossa população, com o governo tirânico atual nos Estados Unidos e com o que ele defende, fosse chegar tão longe. Eu pedi demissão do YouTube no Brasil entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, quando Bolsonaro pai se consolidava como o candidato preferido. De lá, fui trabalhar no Google Japão, onde fiquei até 2021.
No início de tudo, cenários escabrosos soavam mais como distopias ficcionais. Hoje, a máxima “a ficção perde de longe para a realidade” faz cada vez mais sentido.
Em 2018, o escândalo da Cambridge Analytica já apontava para as bombas que viriam a seguir.
Trump estava no segundo ano de seu primeiro mandato quando uma reportagem no The New York Times e no The Guardian revelou que as informações pessoais de milhões de usuários do Facebook haviam vazado, sem consentimento, para fins de propaganda política pró-Trump. Na época, a reputação do então Facebook foi extremamente abalada.
Eu falo sobre esse escândalo e sobre os eventos que culminaram no vazamento das informações no capítulo “O Pote Dourado na base do Arco-Íris” do meu livro “Nômades num barco de origami”, recém-lançado no Brasil (junho de 2026) pela Editora Quelônio.
O Google foi meu empregador entre 2011 e 2021. Ao longo desses anos, tive a oportunidade e a decepção de ver a internet que eu ajudei a criar nos anos de jovem profissional, se converter em uma das principais armas de emancipação do horror que vivemos hoje. Uma catapulta de conservadorismo, fascismo e Eduardas em surto. Do qual eu também participei.
Da missão nobre à pressão por crescimento
Segundo suas certidões de nascimento, datadas da virada do século, as big techs foram criadas para “servir às pessoas”.
Em seus delirantes planos de negócios, no jargão da startuplândia, “business plans”, criados para atrair investidores e encantar talentos, existe um slide dedicado à missão (mission statement). Os americanos são sucintos, mas as missões tendem a ser hiperbólicas.
No seu registro de nascimento, a missão do Google, por exemplo, era “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis a todos”. Acho que ainda é. A do Facebook, formalizada mais adiante, pois a rede nasceu como um “diretório de alunos online”, era “tornar o mundo mais aberto e conectado”.
Modestos os rapazes que as criaram, não? O cérebro trilhardário do espaço, Elon Musk, chegou depois, então nem vou perder tempo buscando vestígios de autocracia na sua megamissão.
Em um perfil de Zuckerberg, escrito pela jornalista Claire Hoffman para a revista Rolling Stone em 2010, o já bilionário dono do Facebook é descrito por pessoas próximas e entrevistadas como um jovem competitivo, introvertido, obstinado e com apetite por voyeurismo. Atributos que não surpreendem num jovem nascido no seio do neoliberalismo global. E que certamente não são exclusivos do dono da Meta.
Não precisa ser gênio para inferir que grandes invenções, na terra do Tio Sam, já nascem com o destino selado. As promessas de crescimento e sucesso formuladas pelos cérebros financeiros para captar recursos são tão superlativas que qualquer intento de impacto positivo da invenção sobre a humanidade é asfixiado de saída.
É preciso “monetizar” a brincadeira. É preciso “escalar”, e não há negócio que consiga permanecer fiel à missão inaugural sem comprometer a integridade do seu impacto diante de tamanha pressão por crescimento.
O petróleo somos nós: quanto você rende à Meta
A genialidade das gigantes de tecnologia social não está na criação de formas sofisticadas de relacionamento online. Eu posto uma foto minha com meu cachorro, meu vestido novo, meu novo amor, e você curte e comenta “irado”. Eu abro uma lojinha online; você vê que seus amigos compraram meu produto e palpita até comprar um igual.
Isso é apenas a superfície. O petróleo das gigantes das redes está nas profundezas, guardado em data centers instalados em locais remotos, acessíveis apenas por sondas de perfuração. O petróleo das redes são nossos dados.
E seu negócio é a mercantilização do nosso tempo. Ou seja, eles elevaram a lógica do capitalismo para além do que o mercado financeiro jamais sonhou alcançar.
No caso da Meta, a receita do negócio vem quase integralmente da publicidade. A previsão é de que, em 2026, a Meta registre uma receita de US$ 243,5 bilhões, segundo projeções de mercado baseadas em seus resultados trimestrais (earnings) mais recentes, divulgados no segundo semestre de 2026. Essa soma representa quase 27% dos gastos globais com publicidade digital.
São 3,6 bilhões de pessoas todos os dias nos aplicativos da Meta: WhatsApp, Instagram, Facebook e Messenger. A Meta parou de divulgar o número de usuários mensais no fim de 2023, quando eram quase 4 bilhões; hoje, o dado oficial é diário.
Se a gente fizer uma conta de padaria e dividir esse faturamento anual por 3,6 bilhões de pessoas, o resultado é de US$ 68 por ano por pessoa. Num lar com 4 pessoas, sua casa rende à Meta, todos os anos, US$ 270, ou seja, algo em torno de R$ 1.400 (com o dólar a R$ 5,20, projeção do mercado para o fim de 2026). Faz sentido que sejamos bonificados, não?
Da noite para o dia (modo de dizer, pois a mudança ocorreu em doses esparsas), deixamos de ver os posts de nossos amigos nos feeds para ver anúncios sem fim de marcas aleatórias.
Ou seja, os anos pós-pandêmicos selaram a transição do Facebook e do Instagram de plataformas sociais para shopping centers. E foi aí, não só em função das plataformas, mas também dos impactos severos do isolamento, especialmente entre jovens e crianças, que as questões de saúde mental explodiram.
Mas se a receita da Meta vem da publicidade e, na maioria dos casos, crianças e adolescentes não compram diretamente nem são o público-alvo das campanhas publicitárias, por que a Meta resiste em protegê-las da superexposição?
Simples. Apesar do valor das crianças, calculado em dólares de publicidade, não ser relevante agora, em algumas décadas elas serão consumidoras — é assim que a Meta calcula o valor das pessoas, em “dólares de publicidade”.
Além disso, os jovens são responsáveis pelo caráter “descolado” e contemporâneo das interações e dos conteúdos. Um “usuário” que entra na plataforma aos 13 anos oferece quase duas décadas a mais de dados, comportamento e intenção de compra do que alguém que entra aos 30 anos.
Não se trata apenas de um volume maior de informações, mas de dados que mapeiam a transição de fases da vida. Da adolescência à faculdade, à carreira e à formação de família. O que é extremamente valioso para a precisão do direcionamento de anúncios no futuro.
O ECA Digital, lei brasileira que protege crianças e adolescentes em redes sociais, jogos e aplicativos, limita a publicidade comercial dirigida a esse público. A lei está em pleno processo de implementação, e sua real adoção depende também de um Congresso que entenda a importância de proteger crianças e jovens.
Quando as redes ficam cafonas
As redes sociais, como as conhecemos no início de tudo, estão com os dias contados. Estão caducando. Ficando cafonas. Num futuro não tão distante, páginas entulhadas de botões de like, filtros de beleza, rolamentos infinitos e publicidades aleatórias disfarçadas de sonhos de consumo imprescindíveis serão coisa do passado.
No V&A East Storehouse, em Londres — uma espécie de museu-armazém de obras de arte onde os visitantes podem escolher peças para admirar de perto, um lugar incrivelmente tátil —, dei de cara com um item inusitado.
Num acervo de mais de 250 mil objetos e 350 mil livros, que vão de figurinos de David Bowie a uma réplica em tamanho real de um escritório desenhado pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright em 1930, havia um protótipo digital da primeira capa do YouTube. Ao vê-la ali, com destaque para “Me at the Zoo”, o primeiro vídeo publicado na plataforma, em abril de 2005, me senti diante de uma carcaça de mamute.

O desenho digital, assim como o de casas, cidades, vagões de trem, roupas, carros, eletrodomésticos, também envelhece e vira peça de museu. Além de perder o frescor, objetos utilitários, como as plataformas tech, correm um grande risco de obsolescência funcional.
Nesse sentido, os atributos de segurança têm especial destaque. Os automóveis, por exemplo. Décadas se passaram entre a invenção dos veículos motorizados e o momento em que itens de proteção, como cinto de segurança, encosto de cabeça e airbag frontal, se tornaram obrigatórios para prevenir mortes e lesões.
US$ 17 bilhões: muito ou pouco?
A principal mensagem que as condenações e os acordos recentes das gigantes Meta e YouTube, em tribunais norte-americanos, entre março e agosto de 2026, nos transmitem é que seus produtos digitais sociais caducaram.
Em março de 2026, em dois dias consecutivos, júris populares nos Estados Unidos condenaram a Meta e o YouTube por algo que elas sempre negaram: saber que seus produtos viciavam crianças — e fazer pouco a respeito.
Foi a primeira vez desde o surgimento das redes sociais que um júri considerou gigantes da tecnologia responsáveis por criar produtos viciantes para crianças e jovens.
No caso do Novo México, a pergunta foi simples: “A Meta mentiu conscientemente aos consumidores do Novo México sobre a segurança de seus produtos?” E a resposta do júri popular foi: “Sim. A Meta mentiu.”
Documentos internos usados como provas nos julgamentos mostram que a alta direção da Meta sabia dos riscos viciantes do seu design, como o scroll infinito, o autoplay, os filtros radicais de beleza e a coleta inadequada de dados de crianças menores de 13 anos, e não fez quase nada a respeito. Publicamente, a Meta minimizou a gravidade do problema.
Apesar das provas, dos sinais e dos estudos, e talvez por conveniência, a dúvida persiste: as redes sociais causam estrago ou promovem o avanço nas nossas vidas e na civilização?
Em agosto deste ano, nos Estados Unidos, a Meta fechou um acordo de até US$ 17,1 bilhões em processos por criar produtos digitais que viciam e adoecem crianças e adolescentes. E este não é o único processo contra a empresa; é apenas o maior deles até o momento.
Há provas suficientes para afirmar que o estrago que elas causam é muito maior do que o valor que aportam à civilização. A esta altura, Mark Zuckerberg e tantos outros barões das tecnologias sociais deveriam, no mínimo, pagar um bônus por excesso de uso e um adicional por insalubridade a todo habitante do planeta.
No dia do acordo, a ação da Meta fechou em alta de 1,1% (isso mesmo, em alta), elevando sua capitalização de mercado em 13 bilhões de dólares. Ou seja, num único dia, a empresa teria recuperado boa parte do valor acordado em juízo. E o mais relevante é que a alta transmite uma mensagem clara do “mercado”: a Meta se deu bem.
O litígio com a indústria do tabaco, nos anos 1990, custou US$ 206 bilhões em acordos e se estendeu por anos.
A soma de US$ 17 bilhões do tribunal de Oakland é muito ou pouco para reparar os danos causados pelo uso compulsivo das plataformas da Meta?
É pouco. Muito pouco. Mas é só o começo.
Em nenhum momento ouvimos da boca de Zuckerberg: “Meus produtos prejudicam crianças e jovens, assumimos a responsabilidade e vamos ‘consertá-los’.” Lembram-se do cinto de segurança dos carros?
O que está em jogo no Brasil
Muitas coisas estão em jogo no Brasil, mas, resumidamente, precisamos criar legislações e formas próprias de responsabilizar e cobrar posicionamento das empresas. A inteligência artificial vem com muito mais força.
O voto majoritário na direita radical pode levar o país de volta aos anos duros da ditadura. A campanha eleitoral e os vídeos de seus asseclas nas redes sociais estão carregados de menções à volta de um estado autocrático.
Às vésperas da eleição de 2026, estamos diante de uma hecatombe digital. Numa simplificação prática, pode-se dizer que o país está metido numa guerra que tem, de um lado, a ala progressista tentando se articular num campo minado e ocupado pelos conservadores, e, de outro, um exército de fake newers que há quase duas décadas está enfronhado nas trincheiras digitais e conhece cada esquina, cada beco delas.
As ações sobre desinformação e publicidade digital irregular na Justiça Eleitoral quase triplicaram em relação às eleições presidenciais de 2022: até 1º de outubro de 2026, eram 9.571 processos, o que representa 11,4% do total, contra 4,1% na eleição anterior.
Segundo a Agência Pública, em registro feito em 3 de outubro, ao menos 1.069 anúncios que mencionavam Lula ou Flávio foram pagos em dólar entre 16 de agosto e 30 de setembro, custaram pelo menos US$ 120,8 mil e circularam sem o rótulo de conteúdo político exigido pela própria Meta.
A regra diz: “As propagandas eleitorais na internet e nas redes sociais não podem conter discurso de ódio, discriminação, incitação a atos antidemocráticos, nem grave ameaça ou violência contra a mulher. Essas condutas podem configurar crime e levar à prisão de quem produz ou divulga a mensagem.”
Isso é exatamente o oposto do que o país vivencia.
As plataformas também aplicam regras próprias e penalidades pelo uso abusivo. No papel, ou melhor, na tela, tudo parece fazer sentido. Mas a verdade é que o crescimento da relevância das plataformas também está pautado pela polêmica e pela radicalização.
Voltemos ao caso das visualizações de Lula. A coligação do presidente acionou o TSE em 10 de outubro, e a Meta atribuiu o problema a uma falha técnica global, que teria atingido criadores em mais de cem países. Pode ser, afinal o caso ainda não foi encerrado. Mas, como observou o ministro Marco Aurélio Bellizze ao cobrar explicações da empresa, tudo acontece num sistema que só a própria Meta controla.
Regular não é uma opção
O avanço do poder das plataformas digitais no mundo está intimamente ligado à sua gênese. E, para conter seu avanço ideológico e financeiro num país como o Brasil, visto como teta dos países “de primeiro mundo”, é preciso regular.
Menos de um mês antes do primeiro turno da eleição de 2026, em 17 de setembro, o Comitê Gestor da Internet (CGI.br) divulgou um plano com as diretrizes para a regulação das redes sociais no Brasil. O plano é amplo e, segundo Fernanda Campagnucci, diretora-executiva do InternetLab, o Brasil já tem uma moldura regulatória para as plataformas digitais, mas, com as diretrizes, a ideia é avançar de uma lógica de foco em conteúdos específicos para uma lógica sistêmica. Ou seja, a plataforma não responde pela remoção ou não de um conteúdo específico, mas é responsável pela implantação de mecanismos adequados de controle.
Na ausência de lei, quem dita as regras é o TSE: a Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, exige que conteúdo feito com IA seja rotulado na propaganda e proíbe publicar ou impulsionar conteúdo novo produzido por IA entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação.
Em julho, Kwai, Telegram, Meta, TikTok, Google, X e LinkedIn firmaram memorandos de entendimento com o TSE, e ElevenLabs, OpenAI e Anthropic aderiram ao Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação.
Quando as averiguações estiverem concluídas, o resultado das eleições será definitivo. E esperemos que priorize a manutenção da democracia.
O fato é que o país navega por mais uma eleição com lacunas na regulação das plataformas. Embora existam a LGPD — lei que protege os dados pessoais e dá aos cidadãos mais controle sobre seu uso — e regras eleitorais para a inteligência artificial, enfrenta-se o desafio de garantir a transparência e a fiscalização do uso de dados e de algoritmos que influenciam o debate público.
E os efeitos catastróficos das redes sociais na civilização e no quintal hiperconectado do Brasil não podem mais ser ignorados.
Além disso, há precedentes históricos do efeito tsunami que as redes têm na escolha de governantes e nos rumos políticos em nossa história recente. Boa parte da guinada da direita no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo pode ser atribuída ao impacto das redes sociais. Um ambiente pouco regulado e, agora sabemos, cada vez mais moldado para atender aos interesses do poder e do dinheiro.
Entre os vários riscos que o retorno a um regime político autoritário representa para a democracia no Brasil, o esvaziamento da regulamentação da inteligência artificial e das big techs é um dos maiores.
As pessoas já passam tempo demais grudadas nas telinhas, e o custo-benefício dessa relação segue sendo uma incógnita que pende pro lado de um buraco sem fundo. E isso não se restringe à saúde mental, que se degradou profundamente; estende-se à possibilidade de vivermos nossas vidas de forma inteligente, livre, autônoma, democrática, bem-informada, possível e não ostensivamente vigiada.
“Resto do mundo”
Falar em necessidade de defender nossa soberania quando o tema é tecnologia não é exagero. As sete magníficas, como são chamadas as grandes do setor de tecnologia pelo mercado financeiro, já representam, juntas, mais de 10% do PIB norte-americano. Posicionar-nos diante de sua tendência extrativista é uma maneira de resistir a uma forma contemporânea de colonização.
Exagero? Nos documentos de divulgação trimestral dos resultados da Meta, os “quarterly earnings reports”, ao exibir o gráfico de evolução da receita publicitária, com exceção dos Estados Unidos, que aparecem lindos, leves e sozinhos, há um agrupamento chamado “Europa”, outro “Ásia”, e o Brasil aparece amalgamado, sabe-se lá com que nações, no grupo “Resto do mundo” (Rest of World). Ou seja, se não cuidarmos dos nossos e de nossas riquezas, as techs não farão isso por nós.
As redes são um fato. Uma necessidade. Hoje, e até que tenhamos alternativas, elas se tornaram indispensáveis. Mas é preciso usá-las de forma consciente, informada, desconfiada. Ou nosso tempo e nossa sanidade continuarão escorrendo pelo ralo. Não dá pra esperar a boa vontade dos moços de Stanford e Harvard.
O mundo jamais voltará a ser o que era antes delas. Significa que estamos ferrados? Não necessariamente. A humanidade já enfrentou formas cruéis e eficazes de exploração ao longo da história e sobreviveu. Mas, para seguir, é preciso resistir.
Fontes de pesquisa:
- The Intercept: O GRANDE EXPERIMENTO. Facebook Papers: as provas que faltavam para mostrar como a rede manipulou você , 01 de dezembro de 2021.
- O Globo: Meta nega interferência política e cita falha técnica global em exibição do total de visualizações de Lula, 13 de outubro de 2026
- The New York Times: “The Social Reckoning Review”: Sounding the alarm 08 de outubro de 2026
- Ministério Público Federal: Eleições 2026: saiba o que é permitido e proibido na propaganda eleitoral pela internet
- Agência Senado: Eleições: o que é permitido e o que é proibido nas redes sociais
- Fast Company: Mark Zuckerberg revela de que lado está. E não é o do Brasil 8 de janeiro de 2025.
- Sony Pictures: The Social Reckoning (Trailer)
- The New York Times: Meta to Pay Up to $17.1 Billion in Landmark Settlement Over Social Media Addiction Claims, 26 de agosto de 2026
- The New York Times: Americans Are Thriving. Why Don’t We Feel Like It? 20 de junho de 2025
- Folha de S. Paulo: O acordo de US$ 17 bilhões da Meta é só o começo
26 de agosto de 2026 - The Conversation: Changes to Facebook and Instagram are a key part of Meta’s $17B settlement with the states over harm to teens 26 de agosto de 2026
- Statista: Global advertising spending is forecasted to reach $1.26 trillion in 2026, with digital sources commanding the vast majority of total market share
- Rolling Stone: The Battle For Facebook (entrevista Zuckerberg) 15 de setembro de 2010)
- The New York Times: Will Meta’s Changes Benefit Young Users’ Mental Health?
- El País: El ‘momento tabacaleras’ de las redes: claves de un acuerdo histórico que marcará el futuro de las plataformas 27 de agosto de 2026
- Forbes: Why Were Tech Stocks Down In 2022—And How Long Will The Slump Last? 19 de janeiro de 2023




