Vilão bom é vilão de ficção

Na ficção, a gente adora um malvado, seja o Loki da Marvel ou o Jack Nicholson de O Iluminado. Em 2026, o vilão real está na cédula, e quarenta anos de democracia estão em jogo.  

Vilão bom é vilão de ficção

Na ficção, a gente adora um malvado, seja o Loki da Marvel ou o Jack Nicholson de O Iluminado. Em 2026, o vilão real está na cédula, e quarenta anos de democracia estão em jogo.  
JAck Nicholson em O Iluminado

“Eu sou Loki. Loki de Asgard. E fui incumbido de um glorioso propósito.” 

E nós, cara-pálida, quem somos? Polianas em surto? 

Loki é um supervilão. Sem ele, os filmes da Marvel seriam mornos. E nós, um bando de mortais inconsoláveis tendo que lidar com a malignidade real servida ao ponto, o que, sejamos honestos, não faz bem à saúde física ou mental dos amiguinhos. 

Loki é a mente brilhante, a “mastermind”, por trás de incontáveis planos de dominação mundial. 

O louco do Loki sonha em destruir cidades, dizimar civilizações e governar mundos. 

Loki, o louco, não tem limites para suas ambições. Mesmo para Freud, a interpretação dos sonhos de Loki seria desafiadora. 

Loki de Asgard é um legítimo malvadão destinado a liderar empreendimentos tentaculares e a elaborar planos de destruição em escala cósmica. Seu arsenal de armas e artefatos é tão vasto que daria inveja aos texanos do centro-oeste caboclo. 

Sem os vilões, os filmes da Marvel não teriam a menor graça. A gente ama tanto odiar vilões que nosso coração chega a palpitar mais por eles do que por heróis sarados e heroínas gostosas. 

A energia despendida pelos mocinhos para trucidar os gênios do crime e azedar seus planos malignos é tamanha que chega a cansar nossa beleza de consumidores glutões de cinema gringo. 

Com raras exceções, os vilões da ficção se divertem terrivelmente ao longo de seus tinhosos percursos. Me lembro de várias cenas de vilões gargalhando. E da gente gargalhando junto, tamanho grau de sofisticação da maldade e do sadismo.

Será que é fetiche? 

Só sei que é quase impossível não se solidarizar com a safadeza bem humorada dos vilões — mesmo sabendo o tamanho do abacaxi que os mocinhos descascam na cola dos bad guys.  

Mocinhos têm a pele bonita, os trajes bem postos. Mocinhos só não usam coletinho porque compromete a mobilidade, caso contrário, já teria marca fashion patrocinando figurino de herói. 

Mocinhos costumam ser jovens alertas e estressados que precisam pagar de bons moços sem desviar um instante a atenção da missão principal. 

Mocinhos não têm tempo pra beijo, amasso, drink, jantar em família ou para gargalhada. Prazer mesmo, pra mocinho, só no “The End”. 

Me lembrei de um vilão icônico, embora não da Marvel. Jack Nicholson em “O Iluminado”. Meu vilão psicopata predileto. Seu sorriso apavorante, mas imensamente divertido, ficou tatuado na minha mente desde a primeira vez que vi o filme.

Bom mesmo é compartilhar o meme clássico de Jack Nicholson congelando quando a temperatura cai abaixo de 20 °C aqui no “Sul Global”.  

O ator Jack Nicholson em "O Iluminado"de Stanley Kubrick
O ator Jack Nicholson em “O Iluminado”de Stanley Kubrick

Passar uma temporadinha em família num hotel abandonado no meio do nada e coberto de neve, como nas longas duas horas e vinte e quatro minutos do filme, é clamar por terror. A locação perfeita. Nas condições perfeitas de pressão atmosférica e temperatura. Na companhia do psicopata perfeito. Pronto, o terror perfeito está armado.

E nós? Até quando vamos nos iludir com a ideia de que vai surgir um mocinho que nos protegerá das vilanias ou, pior, de que o vilão real é um Conde Drácula gato que dá tampinha que não dói e morde gostoso nossa jugular? 

Até quando vamos acreditar que existe uma solução fácil para arrumar um país como o Brasil? 

É certo que temos nossa parcela de vilões e de mocinhos na vida real. Apesar do currículo de vilão andar muito mais disputado. Será o algoritmo? 

Chega a dar preguiça e a embrulhar o estômago acompanhar as notícias.  Às vezes é um tiquinho divertido. Mas na maior parte do tempo, é torturante. O roteirista da nossa malignidade real faltou às aulas de escrita de humor.  

Uma bomba da dimensão do escândalo financeiro do Banco Master, arquitetado pelo galã de quermesse Daniel Vorcaro e seus asseclas — não é divertido. 

Diferente dos filmes da Marvel, em que, apesar da nossa identificação com a sagacidade do vilão, estamos lado a lado com o mocinho para desvendar o plano maligno e acabar com seu autor, no Master, ninguém além dos “protegidos” foi convidado para a festa e a bonança. Ninguém, além dos envolvidos, ficou com a conta bancária mais gorda.  

E acontece que um desses envolvidos era ninguém menos do que Flávio Bolsonaro. Candidato à Presidência da República nas eleições de 2026. 

Vale lembrar que nossa democracia, ainda tão jovem, pode ser destroçada nas mãos das pessoas erradas. 

Tadinha da palavra democracia, tão puída e maltratada.  

Se nossa história recente fosse uma série da Netflix, daria até para resumir os últimos quarenta e um anos, desde que José Sarney assumiu a presidência da República em 1985  —  com a morte de Tancredo Neves, em um único episódio chamado “Sopro de liberdade”. 

Nele, a gente vai contar, de forma bem resumida, a história dos mandatos de sete homens e de uma mulher que ocuparam a Presidência da República de forma democrática. Quer dizer, uns mais e outros menos democráticos, mas, ainda assim, perante a constituição, a denominação é democracia. 

Antes disso, vamos criar outro episódio na nossa série pra contar a história de um período chamado “ditadura”. Este episódio vai se chamar “Delírio maligno”. 

Muitas das pessoas que votarão pela primeira vez na eleição de 2026 só ouviu falar da “ditadura” nas aulas de história e talvez em casa e no noticiario, muitas vezes, enviezado.   

Mas, pra trazer um pouco de contexto ao nosso debate de “vilões x mocinhos”, vamos entrar um pouco no roteiro do nosso episódio “Delírio Maligno”. Durante os anos da ditadura (1964 a 1985), quem “desobedecia” à “ordem” era morto. Quem desobedecia ao governo militar era preso, torturado e, muitas vezes, morto. Morto sem direito a um enterro digno. Morto muitas vezes, desaparecido. 

E nas residências, nas famílias, pra muita gente, pra muitos jovens, indígenas, agricultores, desobedecer à ordem — ou seja, aos pais, aos avós, aos vizinhos, etc. — tinha um preço altíssimo. Muita gente pode não ter morrido, mas por efeito rebote, foi submetida a uma hierarquia doméstica incapacitante de horror durante décadas. 

“Na fase mais violenta da ditadura militar brasileira, quando não restavam mais técnicas de tortura para arrancar delações de suas vítimas, os torturadores recorriam a um último expediente: usar os filhos dos presos políticos, fossem crianças ou mesmo bebês, como última tentativa de obter informações. Ou então, torturava-se em família: pais, mães, filhos, irmãos sofrendo juntos os horrores do cárcere.”  Fonte: Como a ditadura sequestrou crianças e torturou famílias para obter delações, março de 2014, UOL. 

É difícil mesmo entender (tudo) o que está acontecendo. As notícias chegam como avalanche. De forma abrupta, aos montes, congelantes, chegam a sufocar. 

Com exceção de um pequeno grupo de pessoas cujo trabalho depende do acompanhamento minuto a minuto das questões políticas, para os demais, resta tentar acompanhar as notícias e chafurdar na lama das redes sociais e dos grupos de WhatsApp. 

Mas, ainda assim, no meio disso tudo e especialmente em função disso, temos que nos esforçar para resgatar a essência do que é bem e do que é mal. 

É importante retomar, na nossa cabeçola cheia de caraminhola, o que é ético, o que significa agir com humanidade, com amor pelo próximo, com cidadania. 

“O Brasil vai virar uma Venezuela”, “O Brasil irá para as mãos de comunistas favoráveis ao aborto” —  quando escuto isso de pessoas que tiveram acesso a estudo, que não passam por privação extrema como fome, que não têm filho preso ou perdeu o filho pro crime, eu me sinto muito mal. 

Mesmo que fosse verdade, o que não é, nada disso é mais sério do que agir de forma criminosa, formar quadrilha, atentar contra as liberdades individuais e ignorar categoricamente os avanços sociais e econômicos do governo Lula.  E a catástrofe do governo do Bolsonaro pai.

Nos filmes da Marvel, amigo de vilão também é vilão. Quem manda matar, quem quer pra si todo o dinheiro e recursos do planeta e quem fala mal da santa é vilão. 

O mocinho pode ser um pastel cheio de vento e sem recheio, um cara engomado, alguém com quem eu não me identifico, alguém que não me representa, alguém que fez coisas com as quais eu não concordo, mas é o mocinho cacete. Neste contexto eleitoral, só ele pode combater o vilão. 

Afogados em medos, angústias, ressentimentos e vontades, corremos o risco de perder o poder que conquistamos, como indivíduos e como sociedade, ao longo dos últimos 40 anos, desde o fim da ditadura.  

De perder a liberdade de ir, vir e ser, que dá tanto trabalho conquistar e manter. De ser gente, ter uma casa, um salário digno, acesso à saúde e à educação pública e por aí vai. 

Parece pouco e, pra muita gente — talvez a maioria de nós —, ainda é muito pouco mesmo. Afinal, não se cura uma ferida histórica de opressão, colonização, escravidão e extração em quatro décadas. É preciso mais do que liberdade. E liberdade também é contextual no Brasil. Muitas vezes, guiada pelo poder financeiro e pela “exatidão”. 

Mas num passado nem tão distante assim, nem sonhar com liberdade a gente podia. 

A gente não tinha nem um fiapo de garantia dos direitos fundamentais, das liberdades individuais e da participação popular no poder por meio do voto. 

Liberdades individuais? O que é isso mesmo? Entre outras coisas, a liberdade de venerar o santo, o Deus ou a crença que você escolheu, a identidade de gênero com a qual você se identifica, de expor da sua vida a parte que você quer. O direito a um julgamento justo em caso de acusação de prática de crime. Fazer com o seu corpo o que quiser, desde que não prejudique o do outro. 


Mas nada disso importa
Vou abrir a porta
pra você entrar
Beijar minha boca 
Até me matar 
De amor

Trecho da música Doce Vampiro.

A letra de Doce Vampiro é da Rita Lee. Foi lançada em 1979 e composta em parceria com Roberto de Carvalho quando Rita cumpria uma sentença de prisão militar durante a ditadura. Ela tinha sido presa, grávida de Beto Lee, seu primeiro filho, sob a acusação de porte de drogas. A música chegou a ser barrada pelos censores da Ditadura, mas foi liderada.  

Pense bem antes de votar.

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